Quem viu os Process of Guilt como suporte aos Katatonia no Paradise Garage deve provavelmente ter ficado com esse concerto registado na memória e, para essas pessoas, o facto de «Erosion» ser um disco sublime não constitui qualquer surpresa. São muitos elogios para iniciar esta review, mas de facto a evolução de «Renounce» para este «Erosion» só é surpreendente apenas para quem não conhece minimamente os Process of Guilt. É natural que se «Erosion» não fosse tão bom, o discurso seria bem diferente, mas o que aqui se deve destacar é o lado positivo de uma banda que conseguiu sobreviver às altas expectativas criadas, que em casos anteriores já arruinaram projectos logo à nascença (lembram-se dos Icon & and the Black Roses?). É, no entanto, mais fácil do que se julga perceber o porquê desta capacidade de sobrevivência dos Process of Guilt. Pelo genial riff que abre o disco com «Dust» e pelos urros dilacerantes de Hugo Santos em «Lava» ou pela subtil mas marcante percussão de Gonçalo Correia, «Erosion» é um disco sem pontos fracos, daqueles que viciam o ouvinte e o envolvem num ambiente negro e sufocante, mas curiosamente agradável e familiar. Familiar pelas remniscências de ícones do doom como Neurosis e Anathema. Mas com a capacidade de ser bem mais do que um simples exercício de nostalgia. «Erosion» deverá, pela amostra de críticas em sites e blogues estrangeiros, figurar nas listas de melhores discos do ano. Qual então a razão dos Process of Guilt serem nesta altura, na minha modesta mas sincera opinião, a melhor banda portuguesa? Classe, meus amigos, pura e simplesmente classe. 10/10
Saturday, August 29, 2009
MUNICIPAL WASTE - «MASSIVE AGRESSIVE»
E eis que ao quarto álbum os discos dos Municipal Waste são editados em caixas de luxo, a banda aparece nas capas de revistas e passam a cobrar um cachet ultra-inflaccionado. Sinais dos tempos que nos transportam para uma importante questão sobre a forma como a indústria está a ser conduzia, num sentido que as diferenças de tratamento de mercado entre a pop e o metal começam a ficar cada vez mais diluídas. Já tivemos exemplos de bandas que com um ou dois discos atingiram um reconhecimento enorme, mas normalmente também são estas bandas que rapidamente implodem sobre o peso dos próprios egos e ficam a viver à conta do passado. Ok, é um cenário negro e são quase 4 da matina à hora que escrevo isto, talvez seja o sono a martelar-me a cabeça. Por isso, faço um break de 10 minutos e regresso fresco com um café na mão. A opinião mantém-se. Ainda mais depois de comparar os álbuns de Tenet e de Municipal Waste. E nem me falem da falta de seriedade dos Municipal Waste porque o Zetro também é um adepto de festa rija. O que me aborrece em Municipal Waste é o hype dado a uma banda que musicalmente nada faz para merecer tamanha ovação. Thrash crossover, totalmente plagiado às grandes bandas do género. No tempo do thrash da Bay Area as bandas eram em número mil vezes menos e muitas foram esquecidas no tempo, por não fazerem mais nada do que copiar Slayer, Metallica e Megadeth. Não é preciso ir mais longe: os próprios Anthrax que são uma banda clássica, ainda hoje não percebem porque não atingiram o nível das outras três bandas. «Massive Agressive» é um produto que devia ser escrutinizado para ser acusado de atentado a direitos de autor. Totalmente supérfluo e dispensável. A única coisa boa é que só dura 28 minutos. 3/10
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TENET - «SOVEREIGN»
O que salta à vista na estreia dos canadianos Tenet é a luxuosa formação. Reparem: na voz está Steve "Zetro" Souza (ex-Exodus), nas guitarras Jed Simon (ex-Strapping Young Lad) e Glen Alvelais (ex-Forbidden), no baixo Byron Stroud (ex-Zimmers Hole e Fear Factory) e na bateria Gene Hoglan (ex-Death, Death Angel, Testament e Unearth). Um verdadeiro elenco de luxo com raízes no thrash só poderia dar um disco...thrash. É isso mesmo que «Being and Nothingness» a faixa de introdução e mesmo a segunda «Indulge Me» começam por nos dar: thrash metal directo, curto e grosso. Só à terceira faixa intitulada «Crown of Thorns» é que o grupo nos dá algumas variações num perfeito cruzamento entre Testament e Exodus. O solo desta faixa é brilhante. Ouvindo os Tenet é possível perceber que este poderia bem ter sido o disco que os Exodus fariam com Zetro depois de «Tempo of the Damned». Se apreciam thrash old-school bem feito sem caír em modas ou em revivalismos baratos, «Sovereign» far-vos-á subir às nuvens. Se a qualidade for para manter, temos banda! 8/10CALIBAN - «SAY HELLO TO TRAGEDY»
São umas das mais importantes bandas do movimento metalcore, mas também uma das mais interessantes e pesadas do estilo. Ao jeito de uns Heaven Shall Burn, os Caliban não coíbem de utilizar elementos death e black metal no seu som, traduzindo-se numa dinâmica interessante que foge um pouco à vulgaridade que o género actualmente oferece. Mas a receita do metalcore está lá. Os vocais gritados, ocasionalmente tapados por vozes limpas, os breakdowns do costume e a quase obrigatória ausência de solos. «Say Hello to Tragedy» nem sequer é um mau disco de metalcore, aliás se todo o metalcore fosse tão engenhoso como os Caliban são, este género estaria longe de constituir uma verdadeira peste. Atestem-no nas quatro primeiras canções do disco. 6,5/10
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MINSK - «WITH ECHOES IN THE MOVEMENT OF STONE»
Estive quase para deixar passar em branco este disco, sobre o qual ainda tenho algumas dificuldades e reservas no que toca à sua apreciação. E dá-me até um certo gozo de vez em quando apanhar com um disco destes, que dê luta, que nem sempre dê gosto ouvir, mas que num mood certo ouve-se em repeat 5 ou 6 vezes seguidas. Já nem me lembro da última vez em que fui compelido a ouvir um disco vezes sem conta para ter a certeza da opinião que estava a formar. E mesmo assim, a minha opinião presente (ou seja, a sensação final que mais vezes se repetiu!), poderá bem não ser a mesma daqui a um par de meses. Enfim, «With Echoes in the Movement of Stones» é um disco de post-metal. Aqui não há discussão. O problema é perceber se este disco dos Minsk acrescenta alguma coisa ao género ou mesmo se o extravasa ou, se por outro lado, limita-se a ser apenas mais um, num espectro em que já começam a faltar argumentos que distingam umas bandas das outras. Se numa fase inicial, a resposta pendia para a segunda hipótese, lentamente comecei a cantarolar certas secções das músicas em pleno metro de Lisboa e a recuperar em casa essas mesmas canções. Foi aí que as coisas começaram a ficar confusas. Primeiro com a «Means to an End», cuja melodia tem tanto de inquietante como de brilhante e depois com uma particular secção de «The Shore of Transcendence». O álbum, em suma, cresce a cada audição, e o que era monótono na primeira e segunda audição, progressivamente torna-se numa adicção sem limites. Como foi o caso de «Crescent Mirror» e da já citada «Means to an End». Mas tenho enfim alguma pena que este disco não tenha sido alvo de um considerável edit para remover muitos minutos menos interessantes como na desnecessáriamente longa «Almitra's Premonition» e para remover a esquisita «Pisgah» do alinhamento. Embora seja como digo, este disco ainda me vai água pelas barbas, acredito que se trata de um dos melhores álbuns de post metal feitos até hoje. 8,4/10
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GHOST BRIGADE - «ISOLATION SONGS»
Se a estreia dos Ghost Brigade em 2007 com «Guided By Fire» demonstrava ainda uma banda à procura da sua identidade, «Isolation Songs» é um passo em frente na afirmação de um grupo que possui qualidades suficientes para se tornar bastante popular. Apesar de serem finlandeses e do título do disco ser um bocado cliché, a verdade é que ouvindo-o, nada nos faz crer que estamos perante um álbum que fala de solidão, depressão e amores falhados. O riff principal de «Suffocated», por exemplo, é algo que os HIM nunca conseguiriam esgalhar e «Liar» quase chega a soar a death metal sueco. De resto, não estamos propriamente perante um disco repleto de originalidade, com Opeth, Katatonia e Sentenced a assaltarem regularmente os ouvidos. Ainda assim, um óptimo registo, pleno de belos momentos como no excelente «My Heart is a Tomb» e no épico de nove minutos «Birth». 7,6/10
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GLORIOR BELLI - «MEET US AT THE SOUTHERN SIGN»
Os franceses Glorior Belli vêm inseridos no movimento black metal francês que recentemente tem produzido grandes nomes para este género a começar pelos Temple of Baal, Antaeus, Pensées Nocturnes, Blut Aus Nord, Amesoeurs, Alcest ou Peste Noire. O que esta corrente traz de especial é a abordagem refrescante que faz (em alguns casos) ao género, como no caso dos Alcest que utilizam uma panóplia de instrumentos para dar ao black metal uma dimensão mais vasta que não fique presa a tradicionalismos baratos. No caso dos Glorior Belli já em 2007 com «Manifesting the Raging Beast», a banda francesa liderada por Infestvvs mostrara uma enorme vontade em estabelecer o seu lugar dentro de uma sonoridade que nos últimos anos se dividiu entre os over the top Dimmu Borgir e Satyricon e as bandas que se mantinham fiéis à ideologia fixada nos início dos anos 90. Em simultâneo, uma série de bandas começaram a pensar da mesma forma e principalmente (mas não só) de França e Alemanha começaram a aparecer projectos que abordam o black metal numa perspectiva mais aberta sem se esquecerem das bases do estilo, como por exemplo os magníficos norte-americanos Cobalt e os alemães Farsot. Neste disco os Glorior Belli fazem algo bastante original em potência, com inclusão de elementos sulistas e ambientes que não destoariam num disco de Kyuss, como em «Swamp That Shame» e «There is But One Light». Diferente sim mas com algumas limitações no que diz respeito à fórmula utilizada. Nas músicas mas tradicionais sente-se alguma falta de encanto pela vulgaridade apresentada, nomeadamente na fase final do disco, quando parece que o grupo não tem mais nada para mostrar. «The Blazing Darkness (Of Luciferian Skies)» e «Fivefold Thought» arrastam-se penosamente, para na faixa instrumental seguinte sermos presenteados com mais uma sensação de Kyuss formato black metal. É aqui que começa a nascer a desconfiança de que os Glorior Belli de facto tinham uma óptima ideia para este disco, mas não a souberam desenvolver para além dos bons apontamentos demonstrados nas primeiras faixas. Uma pequenina desilusão. 7/10
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Friday, August 28, 2009
HO-CHI-MINH - «IT HAS BEGUN»
Os Ho-Chi-Minh apostam neste seu primeiro longa duração num metal moderno com recurso guitarras pesadonas e aos vocais dinâmicos de Skatro, que alternam entre uma linha mais agressiva e outra limpa, numa toada semelhante à de Anders Fridén, vocalista dos In Flames. Esta é de resto a banda que mais vem à memória durante a audição de «It Has Begun», embora hajam alguns pormenores que distanciem o conjunto alentejano do típico som de Gotemburgo, nomeadamente as costelas hardcore e industrial, esta última mais vincada na parte inicial do disco. Sem ser um disco fulgurante, é um bom começo, em que se nota pelo menos a vontade de marcar um território próprio com canções minadas de riffs e refrões fortes como são os casos de «My Decline», «Aside» e «Reload». 6,5/10
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Tuesday, August 25, 2009
ULCERATE - «EVERYTHING IS FIRE»
É um pensamento comum o de que a actual conjuntura em nada beneficia projectos novos que não estejam interessados em praticar o som da moda, e que invariavelmente acabam ou por desistir de remar contra maré ou ultrapassam tudo e todos, e têm a virtude de saber esperar pelo seu tempo, como aconteceu por exemplo com os Primordial. Os neo-zelandeses Ulcerate podem bem vir a ser um destes casos. A banda liderada por Paul Kelland afigura-se como uma das mais interessantes e inovadoras dentro do espectro death-metal, mas vá-se lá saber porquê, ainda anda enredada em editoras menores como a Willowtip com distribuição assegurada pela mediana Candlelight. «Everything is Fire» deixa então perguntar o que raio se passa com as editoras que deixam passar um disco destes em claro? Trata-se de um trabalho de fusão entre o death-metal mais rápido e bruto com tecnicismos arrepiantes sem serem exagerados. O trio inventa aqui uma nova abordagem ao brutal death-metal, erradicando a ideia que esse estilo tem de ser unica e exclusivamente tocado à velocidade da luz. Experimentem ouvir «We Are Nil» para perceberem o alcance da questão. «Everything is Fire» tem escrito clássico por todo o lado, mas infelizmente nós sabemos que hoje em dia não basta ter um disco sublime entre as mãos...10/10
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HAVOK - «BURN»
Não é fácil no dias que correm ser-se original, ainda mais com a quantidade assombrosa de revivalismos que proliferam no metal, mas verdade seja dita, será que a questão do revivalismo é assim tão complexa? A minha opinião é de que se a banda tem feeling, toca bem e sabe pelo menos escrever um bom refrão, então não há motivo nenhum para se ostracizar uma banda à partida pelo simples facto de se parecer com outras mil que soam exactamente ao mesmo. A diferença entre os Havok e a maioria das bandas do actual revivalismo é que a banda norte-americana nem sequer tenta fazer algo diferente com o thrash-metal, limitam-se a ser num universo em que já foi tudo inventado. «Burn» é um disco afundado em clichés e em rip-offs de Testament e Kreator, mas copia tão bem que chega mesmo a parecer os originais. Tentem, por exemplo, não sentir uma descarga de adrenalina durante «The Root of Evil» ou em «The Disease». Pela pouca vergonha de assumir apenas aquilo que são, mas com qualidade, os Havok merecem uma nota alta, mas tal também seria injusto para quem tenta criar algo diferente, num mundo pejado de cópias. 7/10
Monday, August 24, 2009
PENSÉES NOCTURNES - «VACUUM»
É interessante verificarmos o aparecimento de pequenos movimentos dentro do metal, que mesmo sem capacidade de exposição ou sem aposta por parte das editoras, vão criando nichos de mercado que mesmo sem querer dão origem a semi-modas. Foi o que aconteceu por exemplo ao doom-metal há uns anos, quando os Ahab, Draconian, Swallow the Sun e Tyranny andaram nas bocas do povo. Recentemente, por culpa dos suecos Shining, o depressive black-metal aparece como uma dessas tendências, com imensos projectos a aparecerem todos os dias, cada qual com a sua filosofia. Os nossos Inverno Eterno são umas das boas bandas do estilo, os Shining também e estes Pensées Nocturnes, são sem dúvida uma banda a prestar muita atenção doravante. «Vacuum» é o primeiro registo da banda francesa, que curiosamente nem pode ser chamada de banda, porque apenas tem um elemento nas suas fileiras, Vaerohn, que se mostra um verdadeiro virtuoso (sentimental e não técnico) de uma panóplia admirável de instrumentos. Mas o melhor é que violino, piano, guitarra e bateria nada seriam se as músicas contidas no disco não tivessem um mínimo de requinte para serem apreciadas como tal. E a verdade é que Vaerohn sabe compôr excelentes canções como a lenta e monolítica «Lune Malade» e «Des-Espoir» cuja secção intermédia de piano e violino é qualquer coisa de fenomenal. «Vacuum» é fruto da melhor colheita de depressive black-metal. Um disco soberbo no género, mas de dificílima assimilação para quem está fora dele. Mas relembro que também «La Masquerade Infernale» causou urticária a muita gente em 97 e hoje é um clássico absoluto do black-metal nórdico. 9,2/10
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MORTUUS INFRADAEMONI - «IMIS AVERNIS»
Não adianta estar aqui dar lições de história, porque a qualquer um menos entendido em matérias de black-metal, aconselho uma rápida visita ao wikipedia ou ao blackmetal.com para um crash-course intensivo. O que interessa aqui salientar é que a sonoridade dos Mortuus Infradaemoni é como que um cruzamento entre o black-metal ultra underground que se fez no início da década de 90 e uma tentativa de ir mais além, tornando o som mais ríspido e agressivo como por exemplo os Funeral Mist fizeram em «Salvation». O problema de «Imis Avernis» acaba por ser a indefinição da maior parte das coisas que vamos ouvindo que, ora alterna o vespeiro insuportável com passagens lentas e compassadas sem feeling nenhum. Aliás, o vespeiro é tanto e tão aborrecido que os quase dez minutos da introdutória «Obscuritas Ubique Et In Aeternum» pareceram mesmo intermináveis. Se quiserem ouvir uma boa malha neste álbum, aconselha-se uma rápida audição a «Mortuus Et Prodeunt Infradaemoni», cujo tempero Mayhem faz dela, sem dúvida a melhor do disco. 4,8/10
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SWASHBUCKLE - «BACK TO THE NOOSE»
Confesso que fiquei sem perceber muito bem o porquê da Nuclear Blast ter assinado os Swashbuckle, uma banda de crossover, que para além de musicalmente não apresentar absolutamente ideias nenhumas que valham a pena serem destacadas, ainda propõe uma estética pirata, que absorve toda a imagética de uns Running Wild ou de uns Alestorm. «Back to the Noose» é o típico produto saído dos escritórios das editoras, na tentativa de encaixe financeiro fácil à custa da patetice despegada que é o pirate-metal. Nem sequer vou relevar a capacidade dos músicos, cuja perícia é totalmente ofuscada pela nulidade do projecto que representam. Só espero que isto não seja o futuro do metal. 0/10
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Tuesday, August 11, 2009
VAGOS OPEN AIR - CRÓNICA
O vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro dizia na última edição da Loud! que falta a Portugal um festival que não seja mais do mesmo e que se aproxime da variedade e qualidade de um Wacken Open Air, Metalway ou um Hellfest. Apesar de concordar que o Wacken é o exemplo do que um excelente festival de metal deveria ser, já não concordo que não haja cá festivais que a curto prazo se possam aproximar da excelência de um Wacken. Temos o SWR Barroselas, o Caos Emergente, o Alliance e agora o Vagos Open Air na linha da frente, com respectivas dificuldades financeiras, num país de tradicional complexidade no que toca a organizações de suporte ao metal. A qualidade do cartaz do Vagos é algo que nos dá inclusivamente boas indicações quanto ao futuro dos festivais de metal em Portugal, isto tudo para nem sequer falar do regresso do Ermal que, se se revelar aposta firme, decerto será dentro de mais uma ou duas edições o metalfest de referência em Portugal. No que toca ao Vagos, o festival revela as deficiências normais de uma primeira edição: falta de sinalização na estrada, parcas condições para os duches e WCs e algumas queixas em relação aos preços, que fez muita gente saír do recinto para se alimentar. No entanto, e adiantando o saldo final, o Vagos Open Air merece nota altíssima.Dia 7:
Eram 16h30 quando os F.E.V.E.R. subiram ao palco para destilar temas de rock/metal industrial. A resposta do público foi boa, embora grande parte do povo estivesse numa primeira fase, mais interessada em explorar o espaço lúdico. Mesmo assim, a banda liderada por Fernando Matias, esteve em bom plano. 7/10
Com os Process of Guilt o caso mudou substancialmente de figura, com o já considerável culto que se vive em redor do grupo que aproveitou para tocar temas do novo álbum «Erosion». Durante cerca de 30 minutos o pós doom inundou o campo de futebol do Grupo Desportivo do Calvão e arrisco dizer que não deixou ninguém indiferente. 8/10
O black metal meio progressivo e técnico dos espanhóis Kathaarsys, por outro lado, proporcionou a surpresa da noite, com a apresentação do novo «Anonymous Ballads». O grupo acabou por tocar um set curto, devido à duração da maioria dos seus temas que em alguns casos, apenas foram interpretadas pequenas partes. Pede-se mais trabalho na sala de ensaios para editar as canções de forma a soarem bem ao vivo. Às vezes parecia que estavam a querer despachar a actuação. 6/10
Os Epica entraram pelas 19h20 em palco ao som da intro «Indigo», com «The Obsessive Devotion» a dar o mote para a entrada da hipnotizante performer Simone Simons. Através de temas de symphonic gothic power metal, os holandeses foram quase perfeitos e bastante comunicativos com um público que os aplaudiu a toda a hora. «Imperial March», «Cry for the Moon», «Consign to Oblivion», «Solitary Ground», até mesmo uma cover do Star Wars, entre muitos outros temas foram interpretados, faltando um teaser do novo álbum «Design Your Universe» a ser editado em breve. 8/10
Talvez a banda da noite, os suecos Katatonia poderiam bem ter sido cabeças de cartaz, que ninguém ficaria escandalizado. Mesmo com um início meio atabalhoado com «Leaders» devido a problemas de som, a banda equilibrou-se para dar um show tremendo em que tocaram essencialmente temas dos últimos quatro álbuns, o que gerou alguma tristeza junto dos fãs da fase mais antiga. Mas compreende-se que com temas como «Soil´s Song», «For My Demons», «Teargas», «Criminals», «Evidence», «Ghost of the Sun», «My Twin», «Consternation» e «July», não haja espaço para a fase mais antiga do grupo, que já pouco ou nada tem a ver com a nova sonoridade dos Katatonia. Com uma t-shirt de Moonspell, Jonas Renkse surpreendeu pela positiva, ao mostrar-se bastante mais comunicativo do que lhe é costume. Com um novo álbum prestes a ser editado, talvez não lhes ficásse mal terem dado um cheirinho de uma música nova. 8/10
Os The Gathering subiram ao palco por volta das 23h00, para um set baseado na novidade «The West Pole». Os muitos fãs da banda acompanharam de perto o grupo e entoaram os muitos hinos dos holandeses. A substituta de Anneke van Giersbergen, Silje Wergeland, acabou por dar bem conta do recado, apresentando-se sempre bem afinada e interventiva. Definitivamente uma boa escolha por parte dos irmãos Rutten. «All You Are«, «The West Pole«, «Saturnine», «Leaves» foram alguns dos temas escolhidos, numa actuação que apenas pecou pela falta do habitual encore. 7/10
Dia 8:
Uma noite em branco e um gig à volta de Vagos, deram o mote para uma tarde a dormir no carro ao som de Dark Tranquillity, desistimos de tentar dormir no acampamento. Por volta das 15h00 o recinto volta a abrir, para gáudio das bancas de merchandising que aposto que fizeram uma bela maquia. É aqui que as bandas vão verdadeiramente buscar as suas receitas.
Às 16h30, os Echidna abriram o segundo dia com temas do novo «Insidious Awakening» e com uma boa resposta por parte do público. Nota-se já um certo culto à volta do grupo, que descarregou o seu vigoroso death metal para os primeiros ensaios de mosh pit na audiência. 7/10
Os Thee Orakle tiveram um dia para esquecer, com falhas de som no microfone do vocalista Pedro Silva, o povo compreendeu e aplaudiu o conjunto, cujo novo álbum «Metaphortime» teve destaque natural no repertório. 5/10
Com os espanhóis Dawn of Tears também houve problemas de som, mas o grupo soube dar a volta com uma prestação muitissimo boa, baseada no álbum «Descent», bem como em temas do recente EP «Dark Chamber Litanies». Um death metal escorreito e original, que mereceu todos os fortes aplausos da audiência. 7,5/10
A grande expectativa do festival, quanto a mim, estava na actuação dos Cynic, banda de prog death que lançou no ano passado o fantástico «Traced in Air». Deram um concerto íntimo e bastante sentimental, satisfez os seus fãs e surpreendeu os que não conheciam a banda americana. Temas como «Evolutionary Sleeper», «Integral Birth«, «Nunc Stans», «Adam´s Murmur», entre muitos outros fizeram com que o concerto dos Cynic fosse uma das grandes actuações de todo o festival. 8/10
Os Dark Tranquillity foram para muitos a grande actuação do festival, com Michael Stanne soberbo como frontman e a restante banda musicalmente sem falhas. Stanne acabou por dar origem ao momento curioso do gig, ao solicitar a alguns fãs femininos que estavam na parte da frente que cantassem a música «The Mundane and the Magic» com ele. «Focus Shift», «Lost to Apathy», «Lethe», «The Wonders At Your Feet», «Final Resistance», «There In» e «Free Card», foram alguns dos temas tocados num set muito dedicado ao álbum «Fiction». 8,5/10
Depois de terem estado cá a abrir para os Dimmu Borgir no Coliseu dos Recreios, os Amon Amarth surgiam agora como cabeças de cartaz do segundo dia, e não defraudaram os presentes. Os suecos liderados por Johan Hegg deram um concerto em cheio, animado pelas constantes incursões do gigante vocalista que se soube expressar relativamente bem em português. «Versus The World», «Asator», «Awaits Me», «Victorious March», «Pursuit Of Vikings», «Cry Of The Blackbirds» e «Death In Fire» foram os temas mais aplaudidos, numa noite em que os vikings invadiram Vagos. 8/10
Reportagem por Carlos Cunha, introdução e revisão por Paulo Figueiredo
Reportagem por Carlos Cunha, introdução e revisão por Paulo Figueiredo
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Monday, August 10, 2009
BEHEMOTH - «EVANGELION»
A notável ascensão dos Behemoth ao panteão do metal é só por si motivo de respeito, e por serem uma das mais produtivas bandas da actualidade, que para além de estar constantemente a lançar material novo, fazem-no com uma habitual chancela de qualidade quem surpreende mesmo que não aprecia a banda polaca. Em «Evangelion» os Behemoth surgem iguais a si mesmos, apostando num poderoso death black metal, que varia entre a agressividade de um «Defiling Morality Ov Black God» e o balanço demolidor de um «Ov Fire and the Void» de resto a música mais black metal de todo o disco. O facto da banda de Nergal surgir com uma personalidade bem vincada só abona em favor da sua credibilidade, mas por outro lado, nota-se algum estrangulamento no que diz respeito à fórmula que o frontman utiliza para as suas músicas, como por exemplo em «Daimonos» e em «Shemhamforash» que parecem ser formatadas a partir de canções dos álbuns «Demigod» e «The Apostasy». No pólo oposto estão «He Who Breeds Pestilence» e «Alas, Lord is Upon Me», que propõem um salutar dinamismo entre velocidade e melodia e que são a nosso ver as mais efectivas músicas de «Evangelion» (juntamente com «Ov Fire and the Void»), embora a segunda merecesse um cuidado melhor de composição no que diz respeito à sua estrutura, que se revela desiquilibrada entre a excelente fase inicial e o facilitismo perto do final. A terminar, fica a faixa que vai gerando algum consenso, «Lucifer» que parece saída da fase mais antiga da banda, com o seu ritmo marcial epicista, demonstra que Nergal ainda consegue sair fora dos moldes convencionais da música que criou para os Behemoth. Por enquanto, ficamos com este «Evangelion» em piloto automático, que mesmo assim, está a nível bastante superior à vulgaridade que grassa actualmente no metal. 8/10
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CHTHONIC - «MIRROR OF RETRIBUTION»
Não tem sido favorável a crítica a este «Mirror of Retribution» dos Chthonic, banda que fez furor em 2005 com «Seediq Bale» e o seu bombástico black metal melódico, com bases em Cradle of Filth. É de resto a banda inglesa que mais vem à cabeça durante a audição de «Mirror of Retribution». Em determinadas partes, os Chthonic conseguem a proeza de parecerem mesmo uma banda de versões, (ouvir «Rise of the Shadows») com tudo o que isso trás de negativo. Ou seja, raramente a banda oriunda de Taiwan consegue dar o ar da sua graça, a não ser nas partes em que aposta em violinos para criar ambientes orientais soberbos, como em «Forty-Nine Theurgy Chains» e em «Blooming Blades». Percebe-se porque «Mirror of Retribution» não tem sido bem tratado fora de Taiwan: o disco falha em estar à altura de «Seediq Bale», esse sim um disco que vale a pena ter na colecção. Para acérrimos do black metal melódico e fãs de Cradle of Filth. 5,7/10
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AHAB - «THE DIVINITY OF OCEANS»
A título de curiosidade aconselho-vos a partir para o site do Metal Archives e a darem uma vista de olhos pelas críticas ao álbum de estreia dos Ahab. O impacto que «The Call of the Wretched Sea» teve no underground foi mesmo assim tão grande? Sim, de facto, de cada vez que falo com um doomster, poucos álbuns do género impressionaram tanto como este, e foi uma verdadeira proeza ver os Ahab obterem tanto reconhecimento com um estilo ultra-underground como é o funeral doom. Não admira portanto que «The Divinity of Oceans» fosse aguardado com expectativa. Mas ouvindo este sucessor desse já clássico disco, não deixa de pairar um certo feeling de desilusão pela incapacidade dos Ahab em manterem o nível de qualidade do álbum de estreia. O ambiente sufocante ainda está lá, os vocais são tão assombrosos como antes, mas houve algo que mudou e que se tornou decisivo: a melodia presente no disco. Apesar de em alguns temas, esta melodia transpareça como natural circunstância dos riffs compostos pelos Ahab, não deixa de ter impacto no resultado final da obra, que no geral fica algo atrás do seu antecessor. 7/10
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COALESCE - «OX»
É dificil não ficar impressionado com este «Ox», que levou dez anos a ser editado pelos Coalesce, os autores do soberbo «0:12 Revolution in Just Listening», um dos álbuns de metalcore obrigatórios para se conhecer a génese desse mal amado estilo. No entanto, creio que esse álbum reveste-se de uma significativa importância para se conhecer o passado e o presente do metalcore, mas «Ox» é sem dúvida a resposta à pergunta: "qual será o futuro do género?" «Ox» contém os ingredientes do metalcore, mas não esperem um típico disco do estilo, os Coalesce mostram-nos antes um disco repleto de verdadeiras malhas como «Wild Ox Moan» (o início country é genial) e «The Villain We Won't Deny», embora a minha preferência pessoal esteja em «The Purveyor of Novelty and nonsense», cujo final é simplesmente arrebatador. Mais do que metalcore, este exercício de superação musical está já condenado a absoluto clássico. 10/10AUGURY - «FRAGMENTARY EVIDENCE»
«Fragmentary Evidence» é o segundo registo dos canadianos Augury, banda que depois da estreia pela modesta Galy Records, surge agora associada à gigante Nuclear Blast, e as razões que levaram a multinacional a assinar o conjunto estão bem expressas na música deste álbum. Variando entre o death metal e o progressivo, os Augury poder ser vistos como uma versão mais bruta dos Cynic, banda que no último disco rendeu-se às maravilhas do prog. Os Augury tanto apostam no progressivo mais óbvio como na maravilhosa «Jupiter to Ignite» como no death metal mais directo em «Aetheral». Mas as surpresas não se ficam por aqui. Em «Simian Cattle» temos secções que parecem saídas de um disco de Nevermore e em «Skyless» é possível vislumbrar influências étnicas e inclusive thrash metal americano. Esta panóplia de direcções normalmente resultaria numa cacofonia, mas nas mãos dos Augury, pouca coisa fica fora do sítio, falta por exemplo, alguma objectividade a «Orphans of Living» e a «Oversee the Rebirth». De resto, tão bom, que até faz raiva! 8,5/10
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