Parece que acabaram definitivamente os corpsepaints e os logotipos indecifráveis para os franceses Temple of Baal. Apesar da banda jurar a pés juntos que sempre teve qualquer coisinha a ver com o death metal, a verdade é que «Lightslaying Rituals» é o disco mais death metal da carreira dos Temple of Baal. O que até acaba por beneficar consideravelmente o som da banda, longe de nos álbuns anteriores «Servants of the Beast» (2003) e «Traitors to Mankind» (2005) constituir algo de transcendente. Neste álbum o quarteto destila um conjunto de furiosas músicas de death black, onde o que acaba por distanciar estes Temple of Baal dos "antigos" é claramente a produção mais limpa e a abordagem vocal de Amduscias (auxiliado nos backing vocals pelo guitarrista Alastor e pelo baixista Arkdaemon) que em «Peircing the Veils of Slumber» tem uma prestação muito blackish, mas que em «Triumph of Heretic Fire», «Dead Cult» (soa a Vader não é?) e «Angstgeist» tem precisamente uma performance a puxar ao death metal. Ora, isto até funciona bem, porque bem vistas as coisas, os Temple of Baal deixaram de ser uma banda unidimensional para aperfeiçoarem e dinamizarem o seu som. «Lightslaying Rituals» é um álbum pensado outside the box, para preservar o melhor do death e do black metal, num resultado final muitíssimo satisfatório, mas aperfeiçoável. 7,5/10Thursday, November 26, 2009
TEMPLE OF BAAL - «LIGHTSLAYING RITUALS»
Parece que acabaram definitivamente os corpsepaints e os logotipos indecifráveis para os franceses Temple of Baal. Apesar da banda jurar a pés juntos que sempre teve qualquer coisinha a ver com o death metal, a verdade é que «Lightslaying Rituals» é o disco mais death metal da carreira dos Temple of Baal. O que até acaba por beneficar consideravelmente o som da banda, longe de nos álbuns anteriores «Servants of the Beast» (2003) e «Traitors to Mankind» (2005) constituir algo de transcendente. Neste álbum o quarteto destila um conjunto de furiosas músicas de death black, onde o que acaba por distanciar estes Temple of Baal dos "antigos" é claramente a produção mais limpa e a abordagem vocal de Amduscias (auxiliado nos backing vocals pelo guitarrista Alastor e pelo baixista Arkdaemon) que em «Peircing the Veils of Slumber» tem uma prestação muito blackish, mas que em «Triumph of Heretic Fire», «Dead Cult» (soa a Vader não é?) e «Angstgeist» tem precisamente uma performance a puxar ao death metal. Ora, isto até funciona bem, porque bem vistas as coisas, os Temple of Baal deixaram de ser uma banda unidimensional para aperfeiçoarem e dinamizarem o seu som. «Lightslaying Rituals» é um álbum pensado outside the box, para preservar o melhor do death e do black metal, num resultado final muitíssimo satisfatório, mas aperfeiçoável. 7,5/10ANCESTORS - «OF SOUND MIND»
Creio que nenhum adepto de um só sub-género do metal tem motivos para estar descontente em 2009. Tem sido de facto um ano quantitativamente e qualitativamente muitíssimo bom, diria mesmo, um dos melhores da década e para provar isso basta espreitar um sub-estilo como o doom que sempre teve uma população muito reduzida, raramente aparecendo bandas com algo verdadeiramente relevante para mostrar. Todavia, 2009, tem sido sem margem para dúvidas um excelente ano para o doom metal. Para além de bandas clássicas como My Dying Bride, Candlemass, Count Raven e Swallow the Sun terem regressado com registos que satisfizeram os seus seguidores, também na fusão do doom com o black metal, Shining, Mournful Congregation, Amesoeurs, Celeste, Sun of the Blind e Skitliv fizeram as alegrias dos adeptos do género, assim como noutras vertentes mais clássicas ou de fusão, Laudanum, Abandon, Ahab, The Gates of Slumber, While Heaven Wept, Ava Inferi e Griftegard foram bandas que deram nas vistas. Isto para não falar do infindável espólio do pós-metal/doom que deu à luz álbuns de Buried Inside, Minsk, Shrinebuilder e Process of Guilt. Os norte-americanos Ancestors são mais um projecto de fusão a dar cartas, neste caso na fusão de doom/stoner. Falamos do grupo que gravou em 2008, um álbum de 40 minutos com 2 faixas, chamado «Neptune With Fire». Nesse disco, assim como em «Of Sound Mind» a banda californiana explora texturas lentas, com recurso a passagens de órgão e a 4 vocalistas que tocam simultaneamente instrumentos, à excepção do baterista, que não acumula outras funções. Como praticamente todas as bandas que enveredam por este tipo de sonoridade, Neurosis é um nome que está omnipresente neste material. A emotividade presente é similar, as ocasionais "acelerações" também, sem esquecer aqueles riffs que parecem implodir dentro das próprias canções, como no final da soberba «Bounty of Age», que são "Neurosis trademark". É claro que se os Ancestors fossem somente clones, nunca teria feito a introdução que puderam ler antes. O grupo consegue ter um som mais orgânico, mais fluído e diria mesmo menos experimental do que a banda que gravou «Times of Grace», como nos incríveis minutos inicias de «The Trial» ou em «Mother Animal». Se porventura são adeptos deste tipo de sonoridade, aconselha-se uma visita à página do MySpace do grupo (no link em cima), porque pode estar aqui um disco que vos deixará entretidos durante muito tempo. 8,6/10THE DEVIN TOWNSEND PROJECT - «ADDICTED»
«Addicted» é o segundo de 3 discos que Devin Townsend resolveu lançar de enfiada, sendo que o primeiro «Ki», não tendo sido propriamente um sucesso ao nível qualitativo demonstrou que o canadiano ainda tem muitos truques na manga. «Addicted» é um disco menos contemplativo e mais imediato do que «Ki», como as primeiras canções do disco, «Addicted!» e «Universe in a Ball!» atestam. A grande novidade deste registo é a participação da muito requistada Anneke van Giersbergen que partilha com Hevy Devy as funções de vocalista do álbum. Participação essa que se salda pela positiva, dotando algumas canções como «Bend It Like Bender!» e «Hyperdrive!» (uma nova versão da música com o mesmo nome que aparece no álbum «Ziltoid the Omniscient»), de um carisma muito próprio da cantora holandesa. Apesar de ser um disco bem mais directo e centrado nas guitarras e nas vozes de Anneke e Devin, «Addicted» não dispensa os habituais growls de Townsend, bem audíveis em «Addicted!» e «Resolve!» (Nr: todos os temas do álbum terminam com um ponto de exclamação). Por outro lado, Townsend continua a dotar algumas das suas canções com uma melodia progressiva fantástica, «Ih-Ah!» (o melhor momento de «Addicted» a par de «Awake!»), «Numbered!» e «The Way Home!», são os melhores exemplos. Nesta aventura tripartida de Devin Townsend, que parece estar em crescendo, não podemos deixar de esperar do próximo registo nada menos do que algo ao nível deste «Addicted». 8,3/10GRIFTEGARD - «SOLEMN, SACRED, SEVERE»
Num universo cada vez mais apinhado de bandas sem relevância, e sendo os Griftegard um projecto relativamente recente, formado em 2004, cujo primeiro lançamento data de 2007 com o EP «Psalm Bok» de 2007, tudo indica que «Solemn, Sacred, Severe» deverá atirar estes suecos oriundos de Norrköping, que contam com elementos dos Wolverine nas suas fileiras, directamente para a frente do estilo que praticam. Trata-se do sonho molhado de qualquer adepto ferrenho de doom metal lento e pesado com voz limpa, que reporta directamente a bandas como Lord Vicar, Sleep, Procession, Count Raven e Saint Vitus. Imaginem por instantes uma banda de funeral doom com uma voz limpa e riffs que são variações das secções mais lentas de canções dos Candlemass e ficam com uma ideia daquilo que os Griftegard têm para oferecer. Não custa inclusivé a imaginar este como o natural sucessor de «Epicus Doomicus Metallicus», seja numa «The Mire» de revirar os olhos com aquele riff à «Demons Gate», na introdutória «Charles Taze Russell» (acerca do fundador das Testemunhas de Jeová, aliás todo o álbum gira à volta do conceito religião) ou na prestação brilhante do vocalista Thomas Eriksson em «I Refuse These Ashes», os Griftegard provam que é possível escrever música lentíssima sem nunca perder dinâmica (ouçam a incrível «Drunk With Wormwood»), antes hipnotizando o ouvinte atraíndo-o para uma espiral de melancolia que apetece repetir várias vezes. «Solemn, Sacred, Severe» tem mesmo essa capacidade de nos tornar indivíduos masoquistas, sedentos de mais um spin pelo estado misantrópico que o ambiente avassalador do disco proporciona. Mas tudo isto tem um custo claro... é difícil imaginar que os Griftegard consigam suplantar esta magnífica estreia, que é para já, a par do «The Dead End» dos Abandon, o melhor disco de doom metal de 2009. 9/10VENDETTA - «HERETIC NATION»
Formados em 2006 e com apenas um álbum em carteira («Tyranny of Minority» de 2007), os britânicos Vendetta editam aqui o segundo trabalho, subindo vários pontos com o seu heavy/power metal cheio de garra e força. «Heretic Nation» é um disco repleto de boas malhas, apostadas em riffs enérgicos e em refrões bem esgalhados. Tudo condimentado com uma saudável variedade e com poucos momentos mortos. Desde das mais viradas para os riffs thrash como «Delusion» e «Skaro», como para canções mais balanceadas como a excelente «Powers That Be» e «New Horizon». A voz de Edward Box acaba por ser o lado menos convincente. É eficaz, relembra a espaços James LaBrie, mas revela falta de amplitude nos momentos mais carregados dos Vendetta, como em «New Horizon» e «Age of Annihilation». «Heretic Nation» é uma boa proposta para quem aprecia bandas como Mystic Prophecy e Cage. 7,2/10Sunday, November 22, 2009
DARK FUNERAL - «ANGELUS EXURO PRO ETERNUS»
Com um índice de produtividade de um disco de originais de 4 em 4 anos, um novo trabalho de Dark Funeral começa a ter contornos de acontecimento especial, sobretudo junto da legião de fãs que cresce a olhos vistos, álbum após álbum. Mas se prestarmos atenção à carreira dos Dark Funeral, verificamos que de facto a banda sueca fez por merecer este estatuto de culto, com um conjunto de álbuns espantosos, com excepção feita precisamente ao último «Attera Totus Sanctus» (2005), um disco que ficou qualitativamente muito aquém da genialidade diabólica daquele que vai sendo o mais bem conseguido disco dos Dark Funeral, «Diabolis Interium» (2001). Por isso, atenção redobrada ao passo seguinte da banda de Lord Ahriman e Emperor Magus Caligula, que foram entretanto obrigados a procurar novos baixista e baterista. Se a questão do baixista ficou resolvida muito rapidamente ainda no ano de edição de «Attera Totus Sanctus», com a inclusão de B-Force, já a saída de Matte Modin depois de 7 anos de colaboração, terá sido uma tarefa bastante mais complicada, com Dominator (Nils Fjellström) a ter a dificil tarefa de preencher o lugar. Musicalmente, o disco não apresenta grandes novidades ao típico som dos Dark Funeral, com a produção a ser talvez um pouco mais aguda do que previamente, mas abrindo espaço às vocalizações mais estridentes de Emperor Magus Caligula, sem dúvida um dos mais carismáticos vocalistas de black metal da praça. Novidade, dependendo do ponto de vista, é a inclusão não de uma, como vem sendo hábito, mas de três canções mais lentas e atmosféricas. São elas «My Funeral», «Demons of Five» e «In My Dreams», que são curiosamente alguns dos pontos altos de «Angelus Exuro Pro Eternus». Depois temos as canções que podem normalmente ser esperadas dos Dark Funeral, que não dispensam as líricas satânicas, nem um bom refrão como «Stigmata», «The Birth of the Vampiir» e o tema título. Porém, arrisco dizer, que os Dark Funeral oferecem uma abordagem simultaneamente característica e inovadora, nos dois temas que se seguem, «Demons of Five» e «Declaration of
Hate». A primeira proporciona ao vocalista uma prestação verdadeiramente assombrosa, diria mesmo, a melhor desde que chegou aos Dark Funeral, cimentada num espantoso solo de Chaq Mol nada habitual nas músicas da banda nórdica. No segundo, para além do Caligula dar novamente nas vistas, também Dominator dá o ar da sua graça com uma prestação demolidora com padrões death metal atrás do kit. O refrão está perfeitamente ao nível do melhor da carreira dos Dark Funeral. Concluíndo, «Angelus Exuro Pro Eternus» não revoluciona, nem sequer tenta dar aos fãs novas perspectivas sobre a sonoridade Dark Funeral, porque essa está já há muito delineada desde do clássico «Vobiscum Satanas» (1998). Mas apesar desta atitude conservadora no que toca à direcção musical da sua banda, os estrategas Lord Ahriman e Emperor Magus Caligula com o decorrer dos anos, também se tornaram melhores músicos e mais receptivos à melodia, basta para isso ouvir «My Latex Queen» e «In My Dreams». Isto acaba por introduzir uma nova e saudável dinâmica nos discos de Dark Funeral, fazendo deste um dos mais interessantes e provavelmente vitais trabalhos dos "inefáveis reis da escuridão". 8/10SKYFIRE - «ESOTERIC»
Os suecos Skyfire praticam um death metal melódico, por vezes progressivo, com diversas incursões pelo power metal, o que torna a audição de um disco como «Esoteric» uma tarefa no mínimo complicada. Se temos por um lado a garantia de ouvir diversas passagens ao longo do disco que reflectem uma composição cuidada, cheia de pormenores, com nas excelentes «Darkness Descending» e «Under a Pitch Black Sky», por outro os Skyfire ainda se debatem com a maior dificuldade deste tipo de sonoridade: a capacidade de oferecer canções douradouras, aspecto em que «Esoteric» não é de todo bem sucedido. Apenas a espaços, o grupo oferece algo que equilibra a óbvia habilidade musical com o catchiness necessário para que as canções não sejam mais do que masturbações de técnica apurada, como «Misery's Supremacy», «Linger in Doubt» e «Rise and Decay». Entre uns Dark Tranquillity e uns Dimmu Borgir, com os teclados dos Bal-Sagoth , os Skyfire precisarão apenas de refinar as suas canções para que possam reclamar um lugar no topo das preferências do death metal melódico, ou diria mesmo, sinfónico. O potencial está todo lá. 7,3/10Saturday, November 21, 2009
KATATONIA - «NIGHT IS THE NEW DAY»
É sem dúvida um importante legado aquele que os Katatonia carregam às costas. Desde da fase mais doom, culminada no clássico «Brave Murder Day» (1996), até à fase que começou com «Discouraged Ones» em 1998. Desde então o grupo liderado por Jonas Renkse que passou da bateria para os vocais e Anders Nyström, tem contemplado o mundo do metal com alguns dos mais interessantes álbuns da última década, como «Last Fair Deal Gone Down» e «Viva Emptiness». A notória evolução musical destes suecos levou-os a «The Great Cold Distance» (2006), um disco que não fugia à fórmula presente nas canções de Katatonia desde 1998, mas que aparentemente apelava mais ao mainstream, aspecto pelo qual o grupo foi criticado. Aqui no Event Horizon foi disco do ano. A espera por «Night is the New Day» atenuada pelo leak à cerca de dois meses, adquiriu contornos de enorme expectativa, sendo este decididamente um dos maiores acontecimentos metálicos de 2009. De um forma geral estamos perante um disco mais focado no ambiente do que em dar força às guitarras. Ambiente que fica dentro daquilo que o grupo tem vindo a explorar desde 1998. Uma atmosfera melancólica e urbana, que o excelente título «Night is the New Day» reflecte na perfeição, sendo o trabalho gráfico de Travis Smith, sem dúvida o melhor da carreira grupo a par dos cinzentos do «Viva Emptiness». No que concerne à música, a composição esteve a cargo de Jonas Renkse, que tem aqui uma das melhores prestações vocais da sua carreira, ele que como é sabido, não é propriamente um vocalista muito dinâmico ou versátil, colmatando essa falha com muito coração (oiçam-no em «Inheritance»). O acréscimo de ambiente que se verifica acaba por ser simultaneamente um ponto positivo e negativo do disco. Se as músicas fluem como um todo debaixo das cores preto e vermelho, em várias sentem-se a falta das guitarras que tão bons resultados deram nos álbuns anteriores. Por isso não há aqui nenhuma «Ghost of the Sun» ou uma «Consternation». «Night is the New Day» é antes um conjunto de canções que mergulham o ouvinte num ambiente melancólico sem os espasmos de energia que a variedade que um disco como «Last Fair Deal Gone Down» proporcionava. O melhor exemplo desta falta de explosão está patente na prestação pouco vistosa de Daniel Lijekvist, um dos elementos mais importantes da sonoridade Katatonia, aqui reduzida a repetitivos ritmos off-tempo. Até aqui falámos dos principais aspectos negativos, mas «Night is the New Day» está cheio de momentos brilhantes, a começar pela opethiana «Idle Blood» e por «Day & Then The Shade», cujo vídeo oficial não lembra ao diabo. O carisma de Jonas Renkse e a melodia típica do grupo sueco continuam ainda assim a ser os seus principais trunfos, ou seja, em «The Longest Year», «Forsaker» e «Liberation», tudo canções que podiam perfeitamente ser encaixadas em qualquer um dos últimos quatro títulos da sua discografia. Principalmente «Liberation», com Renkse a cantar brilhantemente o melhor refrão de todo o disco, "it's coming true, i've changed my name but i will pass it on to you". «Night is the New Day» está longe de poder ser comparado em termos de qualidade a «Viva Emptiness» ou a «Last Fair Deal Gone Down», mas não envergonha de maneira nenhuma o restante trabalho do genial grupo sueco, a nosso ver, uma das melhores propostas musicais da actualidade. 8/10
BETWEEN THE BURIED AND ME - «THE GREAT MISDIRECT»
Não é todo fácil apreciar uma banda como os Between the Buried and Me. Estamos perante um colectivo que reúne nas suas composições elementos de vários quadrantes da música, não necessariamente da música pesada, sendo que conseguem fazê-lo com sensibilidade suficiente para nunca deixar de compôr verdadeiras canções. «The Great Misdirect» é a confirmação desse talento do grupo da Carolina do Norte, que se deixa encantar pela brutalidade calculada do mathcore, como por passagens progressivas e ambiências jazz. Por vezes tudo numa única música, como na brilhante «Disease, Injury, Madness», cujo 4 minutos finais são de uma originalidade só mesmo ao alcance de grandes compositores de música extrema. Sim, extrema. Porque apesar da panóplia de estilos que os Between the Buried and Me ousam em misturar, a música soa sempre extrema e de difícil assimilação, como por exemplo nos progressivos ritmos de «Fossil Genera - A Feed From Cloud Mountain» acompanhados de vocalizações típicas do mathcore, com uma passagem final digna de uma qualquer (boa) canção pop. Apesar de toda esta experimentação, «The Great Misdirect» não deixa de ser um excelente álbum, repleto de momentos sublimes, espalhados por todo o disco, mesmo nas partes em que a banda soa ao tradicional metalcore (como na parte inicial cantada em «Swim to the Moon»), sabemos que há sempre qualquer coisa boa que se seguirá, como o solo de bateria mais à frente nessa mesma música. Mas é «Desert Song» que funciona como a lufada de ar fresco deste disco, colocada quase do final do alinhamento e que com o seu andamento melancólico muito próxima de uns Soundgarden e dos momentos mais intimistas dos Dream Theater, proporciona um dos mais belos momentos num disco de metal de 2009, a par da já referida «Disease, Injury, Madness». Por outras palavras, «The Great Misdirect» é um dos melhores discos que nos foram dados a ouvir este ano. 9,5/10Friday, November 20, 2009
URGEHAL - «IKONOKLAST»
Depois de um excelente «Goatcraft Torment» (2006) e de um contrato com a Season of Mist, os Urgehal finalmente inscreveram o seu nome no mapa do black metal mundial, livrando-se do estigma de serem apenas uma banda apostada em recuperar os valores do black metal nórdico só porque sim, e de que o seu ponto de referência era a peculiar máscara de picos do seu guitarrista em vez da música. Aliás, célebres são já as capas de «Through Thick Fog 'Till Death» (2003) e do EP «Demonrape» (2005), que Enzifer protagoniza com a sua famosa máscara. «Ikonoklast» vem provar no entanto, que esta é uma banda que sabe bem os terrenos que pisa ou seja, tira o pé do acelerador, mas nunca descura algo essencial num bom disco de black metal: a atmosfera. Este é também o álbum mais variado da carreira dos Urgehal. Se encontramos por um lado temas que reportam imediatamente para Darkthrone (ver «Stesolid Self-Destruction to Damnation» e «The Necessity of Total Genocide»), outras relembram uns Mayhem em início de carreira como «Dødelagt» e «Approaching Doom». Bem vistas as coisas, tudo soa a dejá-vù não existindo em «Ikonoklast» aquilo a que se poderia chamar de "sonoridade Urgehal", e esse é de facto o único ponto menos positivo deste disco, que encontra em «Astral Projection to Rabid Hell» e «Sopor Necrosanctus» os seus momentos mais doom, mas sem perderem uma ponta que seja daquela atmosfera trve cvlt do black metal norueguês. Em suma, «Ikonoklast» é um bom follow-up a «Goatcraft Torment» e sinal de que os Urgehal vão tendo algo de interessante para mostrar a cada novo lançamento. 7,2/10Tuesday, November 17, 2009
KRALLICE - «DIMENSIONAL BLEEDTHROUGH»
Depois de espantarem meio mundo com o seu auto-intitulado disco de estreia, os norte-americanos Krallice voltam à carga com «Dimensional Bleedthrough», um trabalho em que a receita de sucesso de «Krallice» é novamente usada, bafejando o ouvinte com descargas monumentais de black metal avantgarde, muitas vezes sustentadas em riffs minimalistas arrastados por vários minutos, criando uma atmosfera muita própria às composições da dupla de guitarristas Mick Barr e Colin Marston, como na faixa «Autochthon». «Dimensional Bleedthrough» é, em oposição a «Krallice», um disco bem mais disperso, sem a homogeneidade do primeiro, só a espaços conseguindo ser verdadeiramente entusiasmante, como em «The Mountain» e na curta faixa sem título colocada a meio do álbum. Torna-se praticamente impossível não deixar escapar um bocejo durante os longos monólogos de trémolo na faixa título, em grande parte de «Aridity» e em «Monolith of Possession» com os seus 19 minutos de duração. Completamente desnecessários, diga-se, tendo em conta que o disco raramente tem partes cantadas e que a prestação vocal mais eficiente acaba por ser precisamente na tal música sem título, onde os Krallice recorrem a vocais death metal, que funcionam como um acordar do marasmo proporcionado por «Aridity». «Dimensional Bleedthrough» é porventura um disco mais complicado do que «Krallice», mas deverá agradar a quem adorou o registo de estreia do grupo nova-iorquino. 7/10THE 11TH HOUR - «BURDEN OF GRIEF»
Os The 11th Hour são o projecto de Ed Warby, talentoso multi-instrumentista de Hail of Bullets, Ayreon e Gorefest, e Rogga Johansson dos Edge of Sanity, Deranged e Ribspreader. Assente no doom metal, «Burden of Grief» junta elementos da sonoridade clássica reminscente dos Candlemass e Solitude Aeturnus, assim como do doom death de uns Swallow the Sun e Mourning Beloveth. O resultado é agradável mas longe de brilhante. Em «In The Silent Grave», por exemplo, os The 11th Hour atingem a perfeição com um riff pesadíssimo e um refrão de antologia. O pior é fazer um disco repleto de canções assim, objectivo de que «Burden of Grief» fica muito aquém. «Origins of Mourning» e «Weep For Me» são dois óptimos exercícios de doom and gloom, mas longe de constituírem ideias para serem exploradas ao longo dos 8 e 11 minutos que compõem cada uma das faixas. O mesmo de aplica às restantes canções do álbum. A ideia de juntar as escolas do doom metal é boa, mas «Burden of Grief» apenas utiliza os clichés de ambas as facções e não apresenta nada de muito original. Além disso, esperava-se algo mais bem desenvolvido por parte destes dois conhecidos músicos holandeses. 6/10TALES OF DARK - «PERDITION CALLS»
Da Sérvia chegam-nos estes Tales of Dark, uma banda composta por 7 elementos que praticam doom death metal gótico e apresentam com «Perdition Calls» o seu segundo álbum de originais, depois de «Fragile Monuments» de 2006. Bastará uma escutadela menos atenta para se perceber de onde vem a influência dos Tales of Dark, mas isso não impede o grupo de compôr diversas faixas de metal gótico com alguma qualidade, marcadas por amores perdidos e dúvidas existenciais, com «Sounds Of The Ravage», «Soft Pluvia Murmurs Piano» e «Unassembled» em destaque. Os únicos mas enormes problemas de «Perdition Calls» são a incapacidade da banda sérvia em sair dos moldes já definidos pelas bandas que os influenciaram e a irritante colagem do vocalista Arpad Takaè a Aaron Stainthorpe, dos My Dying Bride, influência primordial dos Tales of Dark, a par de Draconian (por alturas do «Where Lovers Mourn») e Anathema. Ideal para fãs das bandas acima referida e pouco mais. 5,6/10ABANDON - «THE DEAD END»
Os Abandon são um conjunto sueco que se dedica às sonoridades lentas e depressivas do sludge e do doom desde 1998 e que até agora não havia feito nada que a demarcasse das muitas bandas que tocam ambos os estilos. «The Dead End» promete colocar os Abandon no mapa não só pelo brilhantismo da música contida nos dois discos que compõem este terceiro longa duração da banda de Gotemburgo, como também pelo falecimento do vocalista Johan Carlzon em Dezembro de 2008, de overdose. Não podemos desta forma descurar um certo misticismo que transborda de «The Dead End», incrementado pela atmosfera negra e opressiva que brota de cada segundo deste gigantesco duplo-álbum que quase atinge a marca das 2 horas de duração. «Pitch Black Hole» e «It's All Gone» são dois dos melhores momentos, com várias subtis mudanças de ritmo, sempre mantendo um andamento de deitar por terra qualquer sentimento que não seja de absoluta melancolia. Já «Falling Into Place» é uma das mais curtas canções, com pouco mais de 4 minutos, que "acelera" o ritmo para uma batida up-tempo, ainda assim com um feeling semelhante a Neurosis circa «Times of Grace»/«A Sun That Never Sets». Se a prestação de Johan Carlzon, também o principal compositor do grupo, ficará para a posteridade, a verdade é que acaba por ser o o único elemento da música dos Abandon que não consegue demonstrar dinâmica ao longo do disco e que a longa duração do mesmo, acaba por não beneficiar. «The Dead End» é porém das melhores propostas metálicas que ouvimos no presente ano e uma daquelas obras que daqui a uns anos será vista como um marco da fusão sludge/doom. E já agora destaco o soberbo artwork feito de papel reciclável, embrulhado em ecológico pvc. 9/10Monday, November 16, 2009
WHILE HEAVEN WEPT - «VAST OCEANS LACHRYMOSE»
Foram precisos 6 anos, para que os While Heaven Wept nos apresentassem o sucessor do aclamado «Of Empires Forlorn», o qual sugestivamente baptizaram de «Vast Oceans Lachrymose». As novidades são várias no seio da formação, com o mentor Tom Phillips a ceder o lugar de vocalista principal a Rain Irving e a dedicar-se à guitarra e teclados, dando uma ajuda a Irving nos backing vocals. A mudança é benéfica, até porque a voz limpa de Irving é bem poderosa e suficiente, agora que o grupo abandonou os vocais agressivos que pautavam nos álbuns anteriores. Beneficia não só a prestação vocal que se torna mais esclarecida e menos confusa, como permite ao grupo explorar todo o potencial do heavy doom clássico no qual toda a sonoridade dos While Heaven Wept assenta. Pontos fortes para além das vocalizações, são o magnífico ambiente do disco, tão bem captado no artwork e que o tema título traduz na perfeição, e ainda os temas «Vessel» e «To Wander the Void» que são sem dúvida os momentos mais inspirados, a par do colossal «The Furthest Shore» que com menos alguns minutos aqui e ali, seria um autêntico hino de doom metal clássico. «Vast Oceans Lachrymose» é uma bela surpresa na medida em que já ninguém esperava nada dos While Heaven Wept, mas para quem conhece os anteriores trabalhos da banda norte-americana, este álbum é apenas o seguimento lógico de uma discografia plena em interesse e bom gosto. 9,5/10Friday, November 13, 2009
SWALLOW THE SUN - «NEW MOON»
Apesar do cheesy título escolhido pelos Swallow the Sun para este quarto disco de originais (não preciso de explicar porquê, pois não?), «New Moon» é o mais pesado, a par da clássica estreia «The Morning Never Came», disco da banda finlandesa. Bastará ouvir a introdutória «These Woods Breathe Evil» e grande parte da blackish (tremolo e blastbeats incluídos) «Lights on the Lake», para se ficar com essa ideia. Mas isso não significa que «New Moon» seja um bom álbum, longe disso. Estamos perante um grupo que já ultrapassou as barreiras do doom death metal e parece viver em conflito com o seu precoce sucesso. Mesmo sendo uma banda consideravelmente pesada. Por isso temos ao lado das incursões pelo black metal (ou como diriam os Cradle of Filth, extreme gothic metal), músicas como o single «New Moon» e «Falling World», dois temas fortemente inspirados em Tiamat e Amorphis de fase intermédia e que pouco têm a ver com doom death metal. Ainda se os temas fossem de facto muitíssimo fortes, mas nem isso, ficando a ideia de que os Swallow the Sun vivem desesperados a tentar sair do buraco (leia-se doom metal) em que se meteram. Por outro lado, só uma banda com aptidão para as sonoridades depressivas seria capaz de compor um tema como «Weight of the Dead», sem dúvida o melhor momento do disco a par da vampírica «These Woods Breathe Evil». Em suma, se tivermos em conta a discografia dos Swallow the Sun, «New Moon» é claramente o momento menos bom de todos. Mas se isolarmos este disco dos restantes, constatamos que há aqui argumentos suficientes para lhe atribuirmos mérito. Mas o que seria da música sem uma memória histórica? 6,8/10Thursday, November 12, 2009
THE GATES OF SLUMBER - «HYMNS OF BLOOD AND THUNDER»
Alguém se recorda dos Cirith Ungol? Espero bem que sim, porque no que toca a doom metal clássico, são uma das principais referências do género e uma das principais influências destes The Gates of Slumber. Mas não só. Candlemass, Saint Vitus, Witchfinder General e Pentagram, são óbvias fontes onde o trio vai beber na hora de compôr para os seus discos. Ora, isto não significa que estejamos a falar aqui apenas de clones, antes pelo contrário. Os The Gates of Slumber são daqueles genuínos casos em que isso se torna numa vantagem, porque aqui não se trata de revolucionar o quer que seja. Músicas como «Chaos Calling», «Beneath the Eyes of Mars» e «Descent Into Madness» (aquele solo...minha nossa) onde se vislumbra uma leve influência de Mercyful Fate, são feitas com mais coração do que com o intuito de conquistar o mundo com a sua originalidade. Arrisco dizer que este «Hymns of Blood and Thunder» é como que a continuação lógica do clássico «King of the Dead» dos Cirith Ungol. Para este álbum, dificilmente haverá melhor elogio. 8,2/10AT VANCE - «RIDE THE SKY»
Dez anos depois do primeiro álbum «No Escape» os germânicos At Vance compuseram um dos mais simples mas eficientes discos da sua carreira, o que prova que não é necessário agressividade para se compôr power metal interessante. Em «Ride the Sky» temos um conjunto de canções orientadas para os refrões, como manda o género, extremamente bem interpretadas. A começar pelo tema título e por «End of Days». Pelo meio não faltam momentos de excelência melódica, como «Last in Line», no antémico folkish «Salvation Day» e no electrizante «Power». No entanto sobram ainda alguns temas menos conseguidos como «Wishing Well», «Farewell» e a balada «You and I», que de certeza fará muita comichão aos fãs dos anteriores discos do grupo, parecendo mais um tema de Scorpions ou Bon Jovi, do que da banda que gravou o furioso álbum «The Evil In You», apesar deste vosso escriba adorar a dita canção. Olhando para trás, no tempo em que Mats Léven estava na banda (entretanto foi substituido por Rick Altzi em 2007), os At Vance eram uma banda mais agressiva, mas também muitíssimo menos dinâmica. Com esta orientação musical, mais vocacionada para o hard rock e power melódico de uns Kamelot, os At Vance parecem só ter a ganhar. Aguardam-se com interesse os próximos álbuns da banda. 7,3/10Tuesday, November 10, 2009
COMPILAÇÃO 'HISTÓRIA DO DEATH METAL'
Nesta terceira rubrica das compilações, apostamos no Death Metal. Um género que remonta aos meados e finais da década de 80, com o aparecimento de uma extensão mais pesada daquilo que os Slayer faziam. Não é fácil encontrar os percursores, dado que as origens do estilo não são fácilmente detectáveis. Mas não é descabido dizer que bandas como Possessed, Morbid Angel e Nihilist tiveram grande parte da responsabilidade pelo sucesso do Death Metal. Desta vez reunimos 30 faixas (a negrito) que dão uma ideia da evolução do Death Metal ao longo de mais de 3 décadas de existência. De realçar que muita coisa ficou de fora, encontrando-se em baixo uma lista de discos que deverão tentar ouvir para ficar com um autêntico doutoramento em Death Metal. Avisamos que ambas as listas estão em ordem cronológica, mas as músicas do ficheiro rar, estão em ordem aleatória. Esperemos que gostem e já agora todos os comentários são bem-vindos.Relembro que estão disponíveis as compilações do Doom Metal e do Black Metal.
Doom Link: http://eventhorizon-space.blogspot.com/2009/10/compilacao-historia-do-doom-metal.html
Black Link: http://eventhorizon-space.blogspot.com/2009/09/compilacao-historia-do-black-metal.html
'Til Death Do Us Part
Paulo Figueiredo
Tracklist:
Possessed - Seven Churches (Pentagram) 1985
Napalm Death - Scum (Siege of Power) 1987
Nihilist - Premature Autopsy (Sentenced to Death) 1988
Bolt Thrower - Realm of Chaos (World Eater) 1989
Pestilence - Consuming Impulse (Dehydrated) 1989
Morbid Angel - Altars of Madness (Chapel of Ghouls) 1989
Entombed - Left Hand Path (Revel in Flesh) 1990
Deicide - Deicide (Dead By Dawn) 1990
Autopsy - Mental Funeral (Torn From the Womb) 1991
Atheist - Unquestionable Presence (Mother Man) 1991
Sepultura - Arise (Dead Embryonic Cells) 1991
Cannibal Corpse - Tomb of the Mutilated (Hammer Smashed Face) 1992
Brutality - Screams of Anguish (Cries of the Forsaken) 1993
Cynic - Focus (Veil of Maya) 1993
Carcass - Heartwork (Buried Dreams) 1993
Suffocation- Pierced From Within (Depths of Depravity) 1995
Death - Symbolic (Crystal Mountain) 1995
At The Gates - Slaughter of the Soul (Blinded By Fear) 1995
Hypocrisy - Abducted (Roswell 47) 1996
In Flames - Whoracle (Episode 666) 1997
Nile - Among the Catacombs of Nephren-Ka (Ramses Bringer of War) 1998
Children of Bodom - Hatebreeder (Silent Night, Bodom Night) 1999
Immolation - Close to a World Below (Father, You’re Not a Father) 2000
Vader - Litany (Xeper) 2000
Origin - Informis Infinitas Inhumanitas (Inhuman) 2002
Dark Tranquillity - Damage Done (Final Resistance) 2002
Arch Enemy - Anthems of Rebellion (We Will Rise) 2003
The Haunted - rEVOLVEr (No Compromise) 2004
Amon Amarth - With Oden On Our Side (Asator) 2006
Job For a Cowboy - Genesis (Reduced to Mere Filth) 2007
Link: http://www.megaupload.com/?d=O4YRB1I3
Outras sugestões:
Cancer - To The Gory End 1990
Obituary - Cause of Death 1990
Gorefest - Mindloss 1991
Massacre - From Beyond 1991
Dismember - Like an Ever Flowing Stream 1991
Malevolent Creation - Retribution 1992
Incantation - Onward to Golgotha 1992
Monstrosity - Imperial Doom 1992
Necrophobic - The Nocturnal Silence 1993
Cryptopsy - Blasphemy Made Flesh 1994
Krisiun - Black Force Domain 1995
Six Feet Under - Haunted 1995
Brujeria - Raza Odiada 1995
Diabolic - Supreme Evil 1998
Behemoth - Satanica 1999
Dying Fetus - Destroy the Opposition 2000
Zyklon - World ov Worms 2001
Opeth - Blackwater Park 2001
Melechesh - Sphnyx 2003
Decapitated - The Negation 2004
Grave - As Rapture Comes 2006
The Black Dahlia Murder - Nocturnal 2007
Ulcerate - Everything is Fire 2009
Sunday, November 08, 2009
SLAYER - «WORLD PAINTED BLOOD»
Com o sucesso vêm normalmente as grandes expectativas e desde cedo os norte-americanos Slayer se viram rodeados de um público fiel, até fanático, e também muitissimo exigente. Talvez por isso, quando a banda lançou o «Divine Intervention», depois de um «Seasons in the Abyss» que lhes alargou e de que maneira o público, vaticinou-se a queda dos Slayer, acusados de perder o vigor e o perigo de que os primeiros discos eram feitos. Acusações que «Undisputed Attitude» e «Diabolus in Musica» fizeram subir de tom. Mas a verdade é que mesmo «Diabolus in Musica» e o seguinte «God Hates Us All», apesar de serem porventura mais acessíveis, não deixam de ser álbuns de agressividade assinalável. Isto é, podem acusar os Slayer de muita coisa, menos de amolecer para tornar o seu som fácil para as rádios. Aliás, não me recordo de ouvir muitas vezes o «Dead Skin Mask», o «Stain of Mind» ou a «Eyes of the Insane» em rádios comercias ou na MTV, a não ser em programas especializados. Também não será em «World Painted Blood» que isso acontece. Se «Christ Illusion» devolveu aos Slayer a perigosidade que andava a faltar ao grupo, este 11º álbum de originais mantém os índices de agressividade, apesar de algumas falhas como a produção que se esquece de dar força às guitarras e alguns temas serem apenas recuperações de fórmulas e variações de riffs de temas de álbuns anteriores, como «Unit 731», «Beauty Through Order» e «Hate Worldwide». Depois temos ainda algumas músicas que parecem estar algo deslocadas como «Human Strain» que reporta à fase «God Hates Us All» e «Americon», escrita por Kerry King sobre o comércio petrolífero, que parece uma sobra do «Diabolus in Musica», apesar de ser uma música competente e catchy. Os melhores momentos do álbum são porém as últimas malhas do alinhamento, com a agressiva e ponto alto «Psychopathy Red», «Playing With Dolls» a fazer de «Dead Skin Mask», com um riff lúgubre e cheio de ambiente e «Not of this God» que mesmo sendo um óptimo final, não está ao nível de uma «Raining Blood» ou de uma «Supremist». Pelo meio «Public Display of Dismemberment» reporta aos tempos do «Reign in Blood» se é que tal é possível. No final de contas, «World Painted Blood» é um óptimo disco, desequilibrado como já «Christ Illusion» fora, mas demonstra que com 26 anos de carreira os Slayer ainda são capazes de compôr bons discos. 7,5/10SKITLIV - «SKANDINAVISK MISANTROPI»
Este é o primeiro full-length de um projecto formado pelo ex-vocalista dos Mayhem, Maniac, em conjunto com o polémico frontman dos Shining, Kvarforth, que resolveram baptizar de Skitliv, e que é possivelmente um dos mais depressivos de que há memória. Tudo em «Skandinavisk Misantropi» gira sob o signo da angústia, aliando o black metal à morbosidade do doom metal, por entre riffs monolíticos que se estendem por largos minutos e que erradiam qualquer possibilidade de se esboçar um único sorriso durante a hora de dez minutos que prefazem o disco. Não faço ideia de qual o estado de espírito dos músicos envolvidos na hora de gravar este material, mas o ambiente do estúdio não terá sido propriamente alegre. Nem podia, porque ouvindo temas como «Slow Pain Coming», «Hollow Devotion» e «Densetsu», a última coisa com que se fica com vontade é de distribuir beijinhos e abraços. À semelhança do tema título, talvez o melhor momento dos disco a par de «Hollow Devotion», que é um autêntico banho de escuridão visceral, com Maniac a iniciar a música com um discurso em tom semelhante ao tema de Mayhem, «View From Nihil», para se desenvolver através de um riff de revirar os olhos. Enfim, a melhor maneira de perceber o terrível ambiente em que «Skandinavisk Misantropi» envolve, é mesmo ouvindo, porque para aprecia este tipo de sonoridades, dificilmente sairá decepcionado. 9/10Tuesday, November 03, 2009
NILE - «THOSE WHOM THE GODS DETEST»
Começam a faltar palavras para descrever a capacidade dos Nile em disco após disco, reinventarem-se sem nunca perder de vista o brutal death metal com influências étnicas que sempre praticaram. «Those Whom The Gods Detest» demonstra Karl Sanders, o estratega dos Nile, no pico de forma em termos de composição, aventurando-se por temas longos como o brilhante «Kafir!» que abre o álbum, «4th Arra of Dagon» e o tema título, composto de várias estruturas que dariam para escrever álbuns inteiros de bandas actuais de deathcore. Apesar de mais complexo, este sexto álbum dos Nile é paradoxalmente um dos mais imediatos trabalhos do grupo, à semelhança daqueles que são porventura os mais bem conseguidos, «In Their Darkened Shrines» e «Annihilation of the Wicked». A canção «Utterances of the Crawling Dead» é um bom exemplo disso. Para além disto, «Those Whom The Gods Detest» detém algumas das mais pujantes canções da carreira dos Nile com «The Eye of Ra», «Hittite Dung Incantation» e «Kafir!», esta última cujo refrão fará decerto furor nos concertos. Para o fim fica aquela que para nós é a grande malha deste disco, «Iskander D'hul Karnon». É sabido que os Nile normalmente colocam no final dos seus álbuns temas épicos, este não quebra a tendência, finalizando da melhor maneira entre ritmos mid tempo e uma atmosfera terrífica saída directamente das seculares catacombas egípcias. Se por alturas do «In Their Darkened Shrines» perguntava-se se os Nile teriam devorado os seus deuses (Morbid Angel), em alusão à música «Unas, Slayer of Gods», agora ainda mais fará sentido atribuir aos Nile o trono do death metal e um lugar no panteão de um género absolutamente estagnado desde do fim da febre do death metal sueco. Simplesmente, o melhor álbum da intocável carreira dos Nile. 10/10CONVERGE - «AXE TO FALL»
Banda já de culto no que diz respeito ao punk hardcore/ mathcore, os Converge contam neste oitavo álbum de estúdio, com a participação de uma série de ilustres convidados dos Cave In, Disfear, Neurosis e Genghis Tron. Trata-se apenas de um bónus para um dos melhores trabalhos da carreira do grupo de Massachusetts. Em «Axe to Fall» os Converge aperfeiçoam a fórmula dos dois últimos trabalhos, «You Fail Me» e «No Heroes», para incluirem maior diversidade e dinâmica como atestam por exemplo «Worms Will Feed/ Rats Will Feast» e «Cruel Bloom». Em «Wretched World» os Converge mostram com sucesso a sua faceta mais introspectiva, como já haviam feito em faixas dos álbuns anteriores, mas creio que nunca de forma tão expressiva ou mesmo, sentimental. No meio da cacofonia que é «Axe to Fall» tudo faz sentido, até mesmo os ritmos impossíveis de «Dark Horse» e «Rip What You Sow». Só falta encontrar a fórmula que fez de «You Fail Me» o disco mais homogéneo da sua carreira, porque a música atingiu aqui o pico de performatividade. 8,2/10BRAINSTORM - «MEMORIAL ROOTS»
Formados em 1989, os Brainstorm são uma banda de power metal pouco granjeada pelo sucesso, mas mesmo assim, suficientemente produtiva para atraír os fãs da sonoridade para os seus interessantes álbuns, oito no total. Em «Memorial Roots» os Brainstorm optam pela variedade, quando o antecessor «Downburst» indicava que os alemães se preparavam para dar um salto para as paragens mais directas do power metal americano. A introdutória «Forsake What I Believed» espelha esta tendência, com o seu ritmo mid-tempo e algumas experimentações dignas de registo. Acaba precisamente por ser nestas músicas mais atípicas da sonoridade Brainstorm que a banda joga a maior parte dos seus trunfos, «The Conjuction of 7 Planets» é também sublime, mas as peças mais directas como «Shiver», são infelizmente de uma banalidade atroz, desiquilibrando fatalmente o impacto final do trabalho. «Memorial Roots» sofre também com a produção seca, com falta de poder de fogo, que não abona em favor do agradável trabalho de guitarras espalhado por todo o disco (em «Nailed Down Dreams» e «When No One Cares» por exemplo). Interessante, mas longe de essencial. 5,9/10EPICA - «DESIGN YOUR UNIVERSE»
Monday, November 02, 2009
GORGOROTH - «QUANTOS POSSUNT AD SATANITATEM TRAHUNT»
Na infindável lista de novidades entusiasmantes da rentrée metálica deste ano, os Gorgoroth ocupavam os lugares cimeiros, com a disputa judicial entre Infernus e a dupla Gaahl/ King ov Hell, a determinar a continuidade da banda através do guitarrista, único elemento fundador em actividade no grupo. É lógico que depois de uma batalha que durou vários meses, Infernus teve de reconstruír os Gorgoroth, recrutando músicos de segunda linha do black metal internacional como o vocalista Pest dos Obtained Enslavement e Blood Stained Dusk (e antigo vocalista dos Gorgoroth), Tormentor dos Orcustus para a guitarra, o baixista Boddel dos Hellwitch e o baterista Tomas Asklund dos Dark Funeral. Ao ouvir este «Quantos Possunt ad Satanitatem Trahunt», fica patente a ideia de que Infernus sempre foi de facto o mastermind dos Gorgoroth, conseguindo aqui fazer uma súmula daquilo que o conjunto norueguês tem vindo a oferecer desde da sua génese em 1992. Seja através do black metal mais directo e raw como em «Aneuthanasia» e «Prayer», seja através da mais balançadas «Cleansing Fire» e «Human Sacrifice». O passado recente do grupo também não foi esquecido através de «Building a Man» que reporta directamente à sonoridade de um «Incipit Satan». Mas de facto, este 8º álbum dos Gorgoroth parece querer fazer as pazes com o passado mais remoto do grupo, para pacificamente (ou não), projectar a banda para um novo futuro. «Rebirth», um dos melhores momentos do disco, que relembra a clássica «Sorg», é lirica e musicalmente um manifesto contra todas as polémicas em que os Gorgoroth se envolveram nos últimos anos. Aqui o que vale é mesmo a música, que está muitissimo acima da média. 8/10PORTAL - «SWARTH»
Ultrapassado o choque inicial que foi ver três homens vestidos como o Espantalho (um dos inimigos mais famosos de Batman), um dos quais envergando orgulhosamente um relógio de cuco na cabeça, que por vezes dá lugar a um chapéu pontiagudo à Gandalf, tornou-se urgente ouvir com atenção estes australianos de nome, Portal. Um conjunto que, se por um lado prima pela extravangância de uma imagem que poderia perfeitamente ser sight over substance, por outro consegue aliar essa imagem misteriosa a uma sonoridade perturbadora com bases no death e black metal. «Swarth» não é de todo um disco fácil, impõe ao ouvinte dedicação que posteriormente se revela recompensada através de canções com uma atmosfera sufocante, desde do primeiro acorde do tema título até «Marityme». Permitam-me colocar isto da seguinte forma: levado a sério, «Swarth» eleva a patamares perigosamente viciantes a capacidade dos Portal em transportarem o ouvinte através de um mundo sonoro de sombras e existências tortuosas, em que não há espaço para qualquer sentimento que não seja de absoluta negritude. O trio desenvolve ao longo das oito faixas, uma superior musicalidade, sempre em função da atmosfera, com perícia assinalável, como na opressiva »Larvae», na blackish «The Swayy» e na longa e doomy «Werships». «Swarth» é não só um surpreendente exercício de escapismo como muito poucas bandas nos dias de hoje conseguem fazer, mas também a demonstração de que o trabalho desenvolvido em «Seepia» (2003) e «Outre'» (2007), não foi obra do acaso. Só falta agora perceber se os Portal são apenas uma banda de estúdio ou um projecto de ambições maiores, como este fantástico disco parece querer mostrar. 10/10

