Por diversos aspectos «Abrahadabra» é o mais entusiasmante disco dos Dimmu Borgir. Desde logo pela conjuntura da banda durante a feitura deste nono álbum de originais se ter alterado profundamente. Substituir ICS Vortex e Mustis não se afigurava nada fácil para as aspirações dos noruegueses, no entanto se tivermos em conta que sempre foram Silenoz e Shagrath que compuseram as músicas e delinearam a direcção musical dos Dimmu Borgir, a situação ainda mais expectativa gerou. Seria este um retorno às raízes ou traria uma mudança radical de direcção artística para uma das mais importantes bandas do black metal? Bom, respondendo antecipadamente a esta questão: nenhuma e ambas as opções estão correctas. Mas já lá vamos. Primeiro adianto que este álbum fica desde logo marcado pelo fim dos álbuns com três palavras, fechando um ciclo que vinha desde do longínquo «For All Tid». «Abrahadabra» siginifica "i create as i speak" e foi celebrizada por Aleister Crowley, famoso ocultista e líder espiritual, do qual também é conhecida a frase "do what thou wilt". Todos os temas deste álbum têm de alguma forma a ver com as filosofias de Crowley. Desde logo o single de avanço «Gateways», tema colossal em que Agnete Maria Kjolsrud substitui os vocais de ICS Vortex, e que é um verdadeiro manifesto de individualismo e egocentrismo: "realize you are the source of all created, of your own master plan". Acompanhando um tema fantástico, de estrutura catchy e atípica no portfólio dos Dimmu Borgir, a letra é bem reveladora do conteúdo lírico de «Abrahadabra». Outro aspecto fundamental em «Abrahadabra» é a produção a cargo da própria banda, com misturas de Daniel Bergstrand e masterização de Andy Sneap, que apresenta um som nítido com as guitarras e bateria a aparecerem secas, contrapondo com as sublimes orquestrações a cargo de Shagrath e da The Norwegian Radio Orchestra conduzida por Gaute Storaas. Esta opção advém não só da sobreba produção mas também das estruturas das músicas que dão mais lugar ao ambiente e menos à agressividade desconexa. Respondendo às perguntas que coloquei no início da review, isto acaba conferir aos Dimmu Borgir simultaneamente um caminho novo a seguir: o da simplificação dos temas sem perder nenhuma da identidade dos Dimmu Borgir, mas também traz à memória temas do «For All Tid» e do «Enthrone Darkness Triumphant» onde os Dimmu Borgir previlgiavam a atmosfera em vez da velocidade. Os temas «Dimmu Borgir» e «Ritualist» são os melhores exemplos de temas ricos em atmosfera, mas que continuam a soar tão viscerais quanto o material de 1994 e 1997. O lado negativo desta opção é que «Abrahadabra» é um disco pouco guitar oriented, e mais vocacionado para as partes vocais e para as orquestras. Concluíndo, «Abrahadabra» deve ser visto como um disco de ruptura com um passado recente que estava mais interessado em criar álbuns brutais e contextualmente relevantes do que em escrever verdadeiras e memoráveis canções. «Death Cult Armageddon» e «In Sorte Diaboli» sofreram bastante deste mal. «Abrahadabra» consegue recuperar a habilidade de álbuns como «Enthrone Darkness Triumphant», «Spiritual Black Dimensions» e «Puritanical Euphoric Misanthropia» para o presente. Infelizmente, não se trata de um álbum perfeito, longe disso. Nota-se que estes temas foram escritos também para ICS Vortex, que não emprestando a voz a canções como «Renewal» e «Gateways» impede-as de serem as melhores canções de sempre de Dimmu Borgir...felizmente existem outras. Outro aspecto é a falta de coesão do álbum, que a meu ver poderia ter sido evitada com outro alinhamento de músicas. «Abrahadabra» é o primeiro álbum de uma nova fase da carreira dos Dimmu Borgir, agora com o know how suficiente para congregar o melhor da fase antiga mais ambiental e directa («Enthrone Darkness Trumphant») e da fase recente mais orquestrada («Death Cult Armageddon»), este é apenas o primeiro capítulo dessa nova fase que se prevê bastante proveitosa para os Dimmu Borgir. 8,1/10Faixa a faixa:
1. «Xibir»: introdução algo desnecessária e inofensiva. Os Dimmu Borgir já fizeram intros bem melhores do que «Xibir». 5/10
2. «Born Treacherous»: um dos melhores temas de «Abrahadabra». Conciso e directo, onde as guitarras atingem o equilibrio desejável. As orquestrações têm um cheirinho a «Spiritual Black Dimensions» 9/10
3. «Gateways»: tema de avanço cujo vídeo tanta polémica causou. É verdade que a voz de Vortex caía bem melhor do que Maria Agnete Kjolsrud, mas o efeito é praticamente o mesmo. A música é de estrutura simples (verso-refrão-solo-verso-refrão-solo-outro), com linhas de teclado soberbas, um trabalho vocal de Shagrath bem variado e solos de Galder e Silenoz simples mas eficazes. A parte final da música é simplesmente brilhante. «Gateways» ganha dimensão com várias audições, um marco na carreira dos Dimmu Borgir. A versão orquestral desta música sugere que este pode ter sido composto para abrir o álbum. 9/10
4. «Chess With the Abyss»: é inquestionável de que se trata de um óptimo tema, mas também é de estranhar o encosto dos Dimmu Borgir a uma sonoridade que parece saída directamente dos últimos álbuns de Cradle of Filth. Até a voz rouca de Shagrath parece a de Dani Filth. Alguns riffs roubados a Dissection, mas no geral um tema agradável. 6/10
5. «Dimmu Borgir»: inicialmente fez-me lembrar a sonoridade dos Tristania circa «Beyond the Veil», até ouvir a canção mais vezes. Tem um feeling declaradamente «For All Tid», com a pomposidade dos coros e teclados a fazer-se ouvir, e as guitarras em tom quase doom, a declamar riffs épicos que fazem deste tema um clássico instântaneo. Na minha opinião o melhor de «Abrahadabra». 10/10
6. «Ritualist»: finalmente alguma rapidez. «Ritualist» até dá primazia aos teclados por cima de um blastbeat de Daray mas tem um dos melhores refrões do álbum. Pelo meio Snowy Shaw dá um ar da sua graça com uma vocalização que faz lembrar Garm dos Arcturus. 10/10
7. «The Demiurge Molecule»: um tema cuja estrutura varia bastante e torna-se bem catchy. Não tão imediata quanto «Chess With the Abyss» e bem melhor, «The Demiurge Molecule» tem um feeling a Satyricon e surge no meio da melhor sequência do álbum. 7/10
8. «A Jewel Traced Through Coal»: um dos maiores defeitos de «Abrahadabra» é a falta de momentos rápidos. Porém esta música deita por terra a ideia de que os Dimmu Borgir já não sabem fazer black metal negro e obscuro. Os coros a meio são sublimes. «A Jewel Traced Through Coal» é das melhores músicas do álbum, acaba por ficar mal colocada no alinhamento final. Há que dar algum crédito à banda por não ter optado por este tema para single, já que não corresponde minimamente ao conteúdo geral. 9/10
9. «Renewal»: o tema mais guitar oriented de «Abrahadabra». O solo de Galder a abrir é delicioso e a bateria de Daray carrega a música literalmente às costas. Outro refrão magistral faz de «Renewal» um tema soberbo, ainda mais com a melhor prestação vocal de Snowy Shaw em todo o álbum. 8/10
10. «Endings and Continuations»: o tema que encerra «Abrahadabra» é o mais diverso e complexo, com várias mudanças de ritmo, novamente Snowy Shaw numa prestação vocal intensa, mas também mais uma vez ficando a ideia de que Vortex fizesse um melhor trabalho. 8/10








































