

Regresso com a rubrica «Lost & Found» que tem estado afastada do Event Horizon há vários meses, devido essencialmente à falta de tempo. Sempre foi minha prioridade dar espaço a lançamentos novos e como desde da rentrée as edições têm se sucedido a uma velocidade impressionante, o «Lost & Found» foi ficando para trás, assim como as compilações que espero recuperar com a Compilação 2011, que até hoje conta já com um total de 210 músicas. Curiosamente, esta edição do «Lost & Found» em que falo do «Vempire» dos Cradle of Filth já estava meio escrita desde Setembro, pelo que durante a afinação de detalhes e acrescentos, resolvi incluir um outro disco que já estava na minha cabeça colocar nesta rubrica desde da sua estreia. O «Endorama» dos Kreator. No primeiro artigo disse que o «Lost & Found» iria ser um espaço não só para discos de bandas desconhecidas, mas também para álbuns menos tidos em conta de bandas de maior porte. Estes são apenas dois exemplos.
Quanto ao «Vempire, Dark Faerytales in Phallustein», foi o segundo lançamento dos britânicos Cradle of Filth que despontavam na editora Cacophonous. Trata-se de um registo cheio de mística e histórias para contar, vou mencionar algumas, quem quiser acrescentar algum mito, os comentários estão ao vosso dispôr. Como disse, a editora dos Cradle of Filth era na altura a pequena Cacophonous (editora que entretanto desapareceu de cena), com a qual tinham lançado «The Principle of Evil Made Flesh» e ainda tinham um contrato de mais um álbum. Com o impacto que tiveram na cena, foram muitas as editoras que se atiraram ao conjunto britânico, tendo a Music for Nations oferecido um tal contrato, que Dani Filth e companhia resolveram livrar-se da Cacophonous, para editarem o segundo álbum de longa duração pela MFN. Estávamos em 1996 e os Cradle of Filth tinham composto um álbum inteiro o qual iriam chamar de «Dusk and Her Embrace», mas Dani Filth queria fazê-lo pela MFN. Assim, resolveram dividir o álbum em dois, acrescentaram uma intro («Ebony Dressed for Sunset»), uma nova versão de «The Forest Whispers My Name» e um tema composto exclusivamente para o EP («The Rape and Ruin of Angels (Hosannas in Extremis)»). Com isto, contratualmente ficaram livres da Cacophonous e no mesmo ano, lançaram «Dusk and Her Embrace» pela MFN. O EP acabou por ser meio ofuscado pelo sucesso de «Dusk and Her Embrace», mas a verdade é que olhando para trás, não é descabido dizer que é no «Vempire» (ou como alguns gostam de dizer «V (fifth) Empire») que os Cradle of Filth têm o seu melhor material de sempre. A começar pela versão, ou melhor, pelo urgrade de «The Forest Whispers My Name» que é sem dúvida uma das melhores músicas de black metal de sempre. Por falar em black metal é de realçar que a imagem vampírica do grupo causou alguma polémica no seio da comunidade black metal, tendo resultado num divórcio entre o grupo e a corrente BM que estava em alta por esses anos. Curiosamente, o exército de clones de Cradle of Filth que os anos seguintes trouxeram, acabou por dar aos Cradle of Filth (pelo menos até ao «Cruelty and the Beast» em 1998) a ideia de que esse afastamento do black metal underground foi um bom caminho para a carreira dos mesmos. Ora, estamos a falar de um EP, mas não nos esqueçamos que tem 36 minutos, mais do que muitos álbuns que se dizem de longa duração. Com uma produção pulsante e uma qualidade invejável para a altura, foi dos primeiros álbuns de black metal a ter direito a uma produção tão limpa, em que se percebe tudo o que todos os músicos estão fazer. Uma produção flamejante que ajuda o disco a tornar-se ainda melhor, não só em termos de percepção mas também em termos conceptuais. O disco gira à volta de temáticas vampíricas e sanguinárias e a opção pelo som alto nos agudos e abrasivo que chega a ser palpável, torna o ambiente do disco ainda mais perfeito, nomeadamente nesse fantástico épico que é «Queen of Winter, Throned» Nesta altura, os Cradle of Filth eram formados por Dani Filth, Robin Graves, Stuart Anstis, Damien, e Nicholas Barker. O personagem Jared, que aparece no booklet do disco, foi uma partida pregada pela banda, apresentada mais tarde, como uma segunda personalidade de Robin Graves, e que nunce fez parte do grupo. Nick Barker e Stuart Anstis abandonaram aos CoF por volta dos «Cruelty and the Beast», o primeiro para ir para os Dimmu Borgir, o segundo foi mesmo despedido. Enquanto que Damien apenas gravou este EP, para voltar para os Ship of Fools. Este é provavelmente o melhor line-up da banda. Dani Filth estava aqui no pico de forma, antes de optar pelo registo mais gritado de «Dusk and Her Embrace», aqui mostrou uma versatilidade que nunca mais conseguiu recuperar. Nick Barker beneficiou da rapidez do material para introduzir ritmos thrash metal, como na versão de «The Forest Whispers My Name» (aqueles breaks no início da música são de antologia) e em «Nocturnal Supremacy». Damien do qual pouco se sabe e sabia na altura, faz um trabalho de teclados majestoso, nomedamente em «Queen of Winter, Throned». O texto já vai longo, por isso, remato com a ideia principal de que «Vempire, Dark Faerytales in Phallustein» é na minha opinião o melhor lançamento dos Cradle of Filth. Espero que isto vos faça ir recuperar o CD, mais não seja, para lhe tirar o pó!
O «Endorama» dos alemães Kreator talvez se enquadre melhor no contexto desta rúbrica, por ser de facto um álbum esquecido no tempo e que tem os seus méritos. É um disco que surge em 1999, numa altura em que o thrash metal estava nas lonas, o gothic e o black metal davam cartas, e os Kreator resolviam seguir um caminho de deserção do thrash para paragens mais alternativas. Apesar de muito contestado, foi pelo menos consensual que «Endorama» não deixava de ser uma colectânea de grandes músicas, mesmo que fugissem daquilo a que estavamos habituados a ouvir da banda de compôs «Pleasure to Kill». «Endorama» é sem dúvida em álbum enorme, com músicas que merecem não ser esquecidas. As óbvias são «Golden Age»,
«Chosen Few», «Willing Spirit», «Tyranny» e claro, «Everlasting Flame». Entre o rock gótico de «Endorama» que conta com a presença de Thilo Wolf dos Lacrimosa na voz, a influência de Metallica em «Golden Age» e os resquícios de thrash germânico em «Shadowland» e «Soul Eraser», este é um álbum com capacidade de agradar a muito público, sem perder de vista a homogeniedade. Todo ele soa compacto, mesmo quando uma música tão soft como «Willing Spirit» brota das colunas depois de «Soul Eraser». O momento alto do álbum está creio que em «Everlasting Flame» que não soa a Kreator nem a banda nenhuma. Com uma letra soberba, que reflecte muito do que assistimos na contemporaneidade, a canção reveste-se de um feeling nostálgico adequadissimo à música. Um must na carreira dos Kreator. Por falar em letras, «Endorama» é um compêndio de letras fantásticas. Desde logo «Golden Age» e «Chosen Few» e mais tarde «Willing Spirit» e «Tyranny» são exemplo de letras profundas que abordam questões existenciais do ser humano. Depois ficamos com as músicas menos exuberantes mas que com o tempo, crescem e tornam-se competidoras à altura das músicas mais imediatas, são elas «Passage to Babylon», «Future Ring» e «Pandemonium». Dificilmente os Kreator voltarão a gravar algo assim. Foi um disco que Mille Petrozza descreveu como "necessário" e percebe-se que uma banda precise de refrescar a sonoridade para não estagnar. Oxalá todas as bandas que quisessem mudar de ares, gravassem um álbum como este «Endorama». O mundo seria um sítio muito mais feliz. Agora, vão pegar no «Endorama», oiçam-no novamente, esqueçam que é Kreator e apreciem um dos melhores álbuns de metal alternativo de sempre.


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