
Contava-me à dias um amigo que tinha visitado o Event Horizon, que depois de ler algumas críticas, deu de caras no separador "Próximas Reviews" com o nome Gnaw Their Tongues e o título do seu novo trabalho «Per Flagellum Sanguemque, Tenebras Veneramus». A conversa desenvolveu-se através da carreira do projecto holandês e da sua discografia. Uma breve escutadela a alguns temas fez o meu interlocutor perguntar se o objectivo artístico do tipo que deu origem aos Gnaw Their Tongues não seria explorar um conceito anti-arte e cultura. Pode parecer um tanto perverso pensarmos que alguém se dá ao trabalho de lançar discos, dar entrevistas e tudo mais só para difundir uma arte que pretende ser precisamente contra aquilo que representa. Mas se reflectirmos bem, essa postura crítica já foi empreendida, por exemplo, pela pintura. Porque não devíamos também pensar o metal desta forma? É óbvio que todas as expressões artísticas são expressões de qualquer coisa, mas pensar o metal à priori e utilizar uma banda para estabelecer uma teoria ou um estado de coisas sobre o metal, seria elevar o género a um novo nível. Como que uma banda pudesse utilizar-se como veículo de crítica sobre o meio que representa. Fica este tema, para que possam reflectir um pouco. Ora, os Gnaw Their Tongues até se encaixam de alguma forma no conceito de anti-qualquer coisa. Não obedecem a um conceito estético formatado que encontramos na maioria das bandas, sonoramente estão muito distantes de qualquer coisa que podemos ouvir actualmente (podíamos defini-los como uma fusão de black metal, ambiental, marcial (aquilo que os Puissance fazem), neo folk e dark ambient) e uma mensagem caótica e extremista que obedece apenas à vontade do artista. Para que o álbum se concretize será no entanto necessário que o ouvinte compreenda alguma coisa do que os Gnaw Their Tongues fazem, senão «Per Flagellum Sanguemque, Tenebras Veneramus» não passa de um devaneio egoísta lançado com pretensões de ser uma forma de vida alienígena e incompreendida no meio de tanta música que se lança actualmente. A estranheza de algo como ««Per Flagellum Sanguemque, Tenebras Veneramus» chega a ser cativante, numa primeira instância, mas cansativa e indecifrável, numa segunda. Podemos considerar que é na beleza do mistério que está a virtude de «Per Flagellum Sanguemque, Tenebras Veneramus», e sendo assim, alguns iluminados terão o privilégio de entrar no círculo restrito de apreciadores de Gnaw Their Tongues.


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