Thursday, September 29, 2011

MASTODON - «THE HUNTER»

Se a ascensão dos Mastodon a partir de «Remission» foi verdadeiramente astronómica, com a súbita mudança de direcção protagonizada por «Crack the Skye», o hype em redor da banda norte-americana esfriou um pouco com muita gente a condenar a mudança de rumo, que para outros tantos (eu incluído) foi a melhor coisa que os Mastodon fizeram, porque permitiu-lhes sobreviver ao efeito nefasto que gravar um álbum semelhante a «Leviathan» e «Blood Mountain» teria. O efeito surpresa que «Crack the Skye» teve ajudou o quarteto a afastar-se daquela sonoridade, apesar de tudo, revolucionária, mas que prometia guiar os Mastodon a uma beco sem saída do ponto de vista criativo. «The Hunter» vem provar que «Crack the Skye» foi a melhor decisão da carreira dos Mastodon, ainda que perversamente este novo trabalho seja o menos bem conseguido até à data. «The Hunter» vem simplificar a fórmula usada em «Crack the Skye», encurtando os temas de forma a reterem o essencial, ou se quiserem, usam a fórmula dos primeiros álbuns na sonoridade mais pausada e progressiva de «Crack the Skye». O resultado é um álbum de Mastodon mais imediato e easy listening, sem que perca as principais virtudes que vinham demonstrando até aqui. «All the Heavy Lifting» por exemplo, reúne a sensibilidade apoteótica do tema «The Czar» (do anterior trabalho), em apenas quatro minutos de música em oposição aos mais de dez de «The Czar». Por outro lado, temos «Curl of the Burl» e «Creature Lives» dois temas super-simples baseados em secções rockeiras em que a tal vertente mais radio friendly dos Mastodon vem ao de cima. A única excepção será a estranha «Blasteroid», que facilmente se retirava do alinhamento para um qualquer EP, pela extravagância do tema que tanto tem de freakish como de disparatada. «Dry Bone Valley» e «Thickening» vêm ainda provar outro factor positivo de «The Hunter» que no «Crack the Skye» foi amplamente criticado, que são as vozes limpas cantadas. O trabalho de estúdio revela-se extenso, pelo amadurecimento também desta faceta que terá tido os seus detractores no álbum de 2009. Oiçam por exemplo «Creature Lives» em que as vozes remetem para uns The Beatles! De forma geral, «The Hunter» já não tem aquela atitude meio punk do «Leviathan», mas também soube fugir ao progressivismo espacial de «Crack the Skye», juntando esporádicamente o melhor dos dois mundos (em «The Hunter», «Black Tongue», «Stargasm» e «Spectrelight»), mas parece-me que é mais uma vez um disco que fica no meio de qualquer coisa e não se define a si próprio. O que é certo é que este «The Hunter» parece ter muito por onde pegar no futuro, quando os Mastodon quiserem escolher o caminho a seguir, ficando também a ideia de que têm uma liberdade criativa invejável, que mais parece uma mina de ouro sem fundo. 8/10

BRUTAL TRUTH - «END TIME»

Para os Brutal Truth o fim dos tempos aproxima-se e por isso urge compôr uma banda sonora para esse cataclísmico evento sob forma de um recital de grind/death, que começa por incrível que pareça com uma música meio stoner/sludge que só não assusta porque a tracklist apresenta desde logo nada menos do que 23 faixas, quase todas a bater o minuto e pouco de duração, e muitas que nem passam dessa barreira. Essa intro mais arrastada serve como aperitivo para o caos que se segue, confirmado logo em «Simple Math» e «End Time», só voltando a ter uma semi-pausa em «Warm Embrace of Poverty» que é a 11ª faixa e na interminável (no mau sentido) derradeira faixa de 15 minutos, «Control Room». É inegável o impacto de brutalidade que «End Time« propõe, mas ao fim de várias audições (terá sido mesmo o disco que mais vezes ouvi este ano), não se realça nenhum traço verdadeiramente distintivo neste que é o segundo álbum da reencarnação dos Brutal Truth, depois do já morno «Evolution Through Revolution». Os Brutal Truth parecem tentar ter qualquer coisa de pertinente para dizer, dotando os álbuns de uma certa seriedade e de conteúdo político, mas a verdade é que se a musicalidade o disco falha redondamente em proporcionar transcendência, a sua mensagem fica irremediavelmente perdida algures no caminho. Não será nessa altura que é melhor pendurar as botas e saír de cabeça erguida? 5/10

WHITE WIZZARD - «FLYING TIGERS»

Noutra esfera do revivalismo (palavra chave das próximas quatro críticas), os White Wizzard propõem uma revisitação à NWOBHM e ao glam rock. «Flying Tigers» é o segundo álbum, depois de uma estreia em 2010 com «Over the Top», que lhes valeu para já uma tour com Iced Earth, em que a banda californiana não só trás à memória Iron Maiden, como abre espaço aos melhores momentos de bandas glam e hard rock como WASP e Twisted Sister. A sonoridade é assumidamente retro e assente em estruturas simples de verso-refrão-verso-refrão-solo-refrão, em que a voz de Michael Gremio (ex-Cellador) assume especial preponderância (ouvir «West L.A. Nights», por exemplo). Apesar de nem todas as malhas de «Flying Tigers» serem grande hits, os White Wizzard têm o condão de conseguir compôr músicas com grande longevidade (se se gostar do estilo, claro!), como «Fight to the Death», «Fall of Atlantis», o virtuoso instrumental «Demons and Diamonds» e a magnífica power ballad «Starchild» que tem precisamente um feeling muito Iced Earth. Num registo nostálgico, «Flying Tiger» é mais do que satisfatório e um óptimo follow-up a «Over the Top». 7,5/10

EVILE - «FIVE SERPENT'S TEETH»

A semelhança das bandas cujas críticas ficam em baixo, os Evile são uma banda que aposta em recuperar sonoridades clássicas, neste caso o thrash americano, mais concretamente os Metallica e os Testament. Não há muito a dizer de «Five Serpent's Teeth», e na verdade é um álbum cuja crítica ideal seria uma cópia da crítica do álbum anterior, mudando-lhe os títulos do álbum e das músicas. Dentro do thrash os Evile não inventam absolutamente nada, e por vezes, conseguem ser muito irritantes, tal a forma como vão passando a pente fino os clichés da sonoridade. Ora, isto à primeira vista parece ser assim bastante mau, mas mesmo sendo um álbum totalmente dispensável do ponto de vista de quem já ouve thrash à mais tempo, é essencial ter-se em conta que muita gente começou a ouvir thrash nos últimos anos, e os Evile são inclusivamente das primeiras bandas do género que ouviram. Neste contexto, é possível admitir que «Five Serpent's Teeth» é um registo com impacto, mas fora deste cenário, é apenas mais uma obra do cada vez mais cansativo neo-thrash. 6,5/10

WARBRINGER - «WORLDS TORN ASUNDER»

É difícil falar nos Warbringer e não mencionar o movimento a que vêm associados, o neo-thrash, que tem produzido uma quantidade infindável de bandas que recuperam o thrash metal para lhe dar a roupagem super-produzida que não havia nos anos 80. Esse é porventura um dos poucos pontos positivos que o neo-thrash trás consigo: a possibilidade de ouvirmos thrash metal pujante com grandes produções. No entanto, se ouvirem os recentes trabalhos de Overkill, Testament e Exodus (estes últimos de alguma forma responsáveis pelo sucesso deste revivalismo depois da bomba «Tempo of the Damned»), vão perceber que a necessidade deste movimento não era assim tanta, porque quem já fazia thrash nos anos 80, continua a fazê-lo com enorme mestria e uma produção finalmente bombástica. Os Warbringer nem são das piores bandas do revivalismo thrash, conseguindo juntar uma série de ingredientes dos quais se compõem grandes bandas: boas músicas, bons intérpretes, um vocalista distinto e uma sonoridade nada cansativa. Por isso apesar de pensarmos que a originalidade zero corresponde a um disco mau ou mediano, pode ficar desde já desenganado, porque «Worlds Torn Asunder» prova com um conjunto de músicas cativantes, com «Future Ages Gone» e «Shattered Like Glass» à cabeça, que o neo-thrash afinal até tem coisas boas. Dos Anthrax aos Sepultura, passando por Testament e Slayer, os Warbringer percorrem o vasto espectro do thrash num disco altamente recomendado a quem aprecia a sonoridade. 8,2/10

LANDMINE MARATHON - «GALLOWS»

Quatro álbuns e um relativo anonimato são os objectivos alcançados pelos norte-americanos Landmine Marathon que apostam num death/thrash metal entrelaçado pelas raízes do seu país de origem e pelo death metal escandinavo. A mistura é explosiva, e neste «Gallows» atinge mesmo a sua expressão, na minha opinião, máxima. O disco revela uma dinâmica impressionante entre a melodia dos riffs death provenientes de bandas suecas como Entombed, Grave e Dismember e junta-lhe a ferocidade de uns Morbid Angel, e partes mais pausadas que relembram o trabalho dos seminais Autopsy, com riffs doom (ouvir «Dead Horses» e «Morbidity») que até chegam a soar aos álbuns iniciais dos My Dying Bride, em «Knife From My Sleeve». «Gallows» acaba por saber a pouco (não chega sequer aos 30 minutos), mas a energia que um disco destes gera num tão curto espaço de tempo é suficiente para o fazermos girar várias vezes. Experimentem ouvir «Cloaked in Red» e tentem não relembrar o infernal thrash dos Slayer, com respectivo arrepio na espinha, ou o início frenético de «Three Snake Leaves» e «Cutting Flesh and Bone». Dentro da onda revivalista que assola o metal actualmente, haja bandas como os Landmine Marathon, que não oferecem nada de novo, mas revisitam as sonoridades clássicas com grande vontade de espalhar caos. Estes gajos deviam estar a abrir para bandas clássicas e não para os Warbringer! 9/10

Friday, September 23, 2011

AMEBIX - «SONIC MASS»

Por norma não costumo ser dado a euforias quando oiço um disco, mesmo que bom, pois todos sabemos o quão efémero é actualmente o lifespan de um álbum, seja ele bom, mau ou mediano. Mesmo aqueles álbuns fora de série encontram actualmente enormes dificuldades em sobreviver muito tempo na "frontpage" do mercado, e intitular hoje um disco de clássico é uma tarefa que tanto tem de ingrata como de traiçoeira. Os próprios Amebix são como que um paradigma disso. Apesar de serem conhecidos por um vasto número de bons conhecedores do panorama metálico dos anos oitenta, não são muitos os que actualmente dão o devido valor a «Arise!» e «Monolith» editados entre 1985 e 1987. Distantes das sonoridades punk e thrash está agora a banda inglesa, que em «Sonic Mass» volta a surpreender e a compôr uma série de malhas que estariam destinadas a grandes feitos, não fosse o panorma actual do mercado predominantemente descartável. «Sonic Mass» começa em ambiente doomesco e sludgy nos quatro primeiros temas, cuspidos com tal emotividade que impressiona e agarra o ouvinte. Já «The Visitation» é um peça bem experimental, repleta de atmosfera remniscente dos Cathedral, com um cheiro a Crowbar. Cedo «Sonic Mass» revela-se uma escuta gratificante, primeiro por não se valer dos frutos colhidos pelos dois álbuns clássicos da banda e segundo, por proporcionar uma audição tão variada quanto interessante, como se constata no tema título, dividido em duas partes. A primeira parte faz lembrar a música dos Of the Wand & the Moon, a segunda aponta na direcção pesadona dos tais Crowbar. «Sonic Mass» é um álbum repleto de sensibilidade musical, de histórias contadas através da música, em vez de ser apenas uma amálgama de peso desconexo, a melodia de «Knights of the Black Sun», por exemplo, prova-o. Faz-me recordar o «Nucleus» dos Dawnbringer editado em 2010: recupera os ingredientes principais da música feita nos anos 80/90 e adequa-os aos dias de hoje, com resultados nada menos do que surpreendentes. Um dos discos do ano. 9,5/10

ELDRITCH - «GAIA'S LEGACY»

Com uma discografia tão vasta, surpreende que os Eldritch continuem a ser no meio power metal, a ser uma banda de segunda linha. Sobretudo se atentarmos a discos de belo efeito como «Portrait of the Abyss Within» (2004) e «Reverse» (2001). «Gaia's Legacy» é mais um passo nos terrenos do power metal, desta vez com um raio de acção mais vasto que lhes permite explorar texturas pesadas e progressivas como na intensa «Everything's Burning» e na melódica «Mother Earth». Pautado por vários interlúdios de efeitos apocalíptico e uma aura dramática (discursos políticos e anúncios de catástrofes), «Gaia's Legacy» flui de forma contagiante, deixando muitos dos melhores temas para o fim, como «Like a Child», «Signs», «Thinning Out» e «Thirst In Our Hands (Gaias Lament)». A influência de Fates Warning é evidente e coroada com a cover de «Through Different Eyes». Este oitavo disco dos italianos Eldritch, que contam com o trunfo de terem um vocalista nativo com uma pronúncia inglesa estupenda, pode não ser um marco da sonoridade, mas é um álbum extremamente cativante. 7,8/10

ALMAH - «MOTION»

Já aqui falei dos Almah, projecto de Edu Falaschi, dos Angra, que aqui se rende ao hard n' heavy, deixando de lado o power metal melódico e mais tradicional dos Angra. «Motion» é já o terceiro registo, que continua a propôr o tal hard rock melódico, assente em melodias sentimentais e refrões super-catchy, guiados pela magnífica voz de Falaschi. Ainda assim considerávelmente melhor do que o anterior «Fragile Equality» (2008) e ao nível do álbum de estreia «Almah» (2006), «Motion» é composto de músicas soberbas como a radio friendly «Bullets on the Altar», a bluesy «Trace of Trait» e a rockeira «Living and Drifting». Tempo ainda para o vocais ríspidos de «Zombies Dictator» e para o death metal escandinavo de «Soul Alight». É verdade que este acréscimo de peso em alguns temas, pelo menos desta natureza, pode soar meio estranho para quem conhece os Angra e os álbuns anteriores de Almah, mas acaba por conferir ao disco a variedade necessária para torná-lo interessante de príncipio ao fim, sem que soe a dejá-vú. Muitíssimo bom. 9/10

Tuesday, September 20, 2011

REDEMPTION - «THIS MORTAL COIL»

Época de rentrée, os mercados agitam-se, os estabelecimentos de ensino transbordam de alunos, as empresas aplicam novos ditames, a temperatura desce e o Outono fica à porta. O panorama metálico não fica indiferente a este período pós-férias, e começa a atirar cá para fora um lote respeitável de material, colocando imensos problemas, não só às bandas, que vêm-se a braços com grande concorrência, como para a imprensa generalizada, que opta por dar cobertura às bandas mais conhecidas em detrimento de grupos emergentes como os Redemption e claro, aos (leais) fãs de metal, cujo poder de compra é na maioria dos casos, limitado, e tem de escolher de entre dezenas de títulos, 2, 3 ou 4 eleitos. Para uma banda como os Redemption isto pode ser ainda agravado pelo facto de ainda serem relativamente desconhecidos e também porque actualmente conjuntura não os favorece muito: numa altura em que o metal progressivo está agitado pelos recentes lançamentos de Symphony X, Dream Theater, Opeth, Yes e em breve dos Pain of Salvation, resta ao grupo americano esperar que este hype à volta do progressivo lhes dê algum protagonismo, que é possível, basta para isso relembrar os recentes discos de Leprous e Communic que segundo consta até foram bem sucedidos, um pouco contra o esperado. Para tal, os Redemption poder-se-ão valer do talento musical que possuem e que originou um dos melhores álbuns de metal progressivo dos últimos tempos: «Snowfall on Judgement Day». Se não conhecem, aconselho repescarem este disco de 2009 o quanto antes, e já agora, a restante discografia da qual confesso conhecer minimamente bem apenas «The Fullness of Time» de 2005. «This Mortal Coil» é um álbum mas negro e pesado que o anterior, e também mais encostado ao que os Symphony X têm feito nos últimos dois álbuns. Mas se tiver de escolher entre «This Mortal Coil» e o «Iconoclast», acabo por preferir o primeiro em virtude da maior amplitude dos Redemption conseguirem recorrer a vários quadrantes do metal (thrash, power, prog) sem perderem a melodia característica do prog, enquanto que os Symphony X encontraram no power/prog agressivo «Paradise Lost» uma fórmula vencedora que se limitaram a explorar em «Iconoclast», não obstante, com grandes resultados. «This Mortal Coil» parece-me no entanto um álbum mais completo, que oscila entre a agressividade quase thrash de uma «Noonday Devil» e a melodia semi-baladesca de «Let It Rain», passando pelo carrosel de riffs de «Dreams From the Pit» e pelo imediatismo de «Path of the Whirlwind» e «Stronger Than Death», variedade que também existe em «Iconoclast» mas que nos contexto dos Symphony X representa uma "menor" evolução do que «This Mortal Coil» representa para os Redemption. O que menos me seduz nos Redemption é somente o timbre de Ray Alder (Fates Warning) que fica a perder em termos de carisma para um Russell Allen ou um James La Brie. Tirando este detalhe, que de qualquer forma, dependerá sempre do gosto do ouvinte, «This Mortal Coil» apresenta-se como sendo um dos grandes álbuns de metal progressivo do ano, e merecedor de toda a atenção por parte de quem se encontra extasiado pelos recentes álbuns das bandas acima referidas. 9/10

Sunday, September 18, 2011

MACHINE HEAD - «UNTO THE LOCUST»

No seguimento do mais bem sucedido álbum das suas carreiras, a par de «Burn My Eyes», os Machine Head esperaram nada menos do que 4 anos para editar um sucessor à altura, ainda que o desafio de superar «The Blackening» não se adivinhasse nada fácil. «Unto the Locust» é um disco desde logo como uma sonoridade mais cheia do que o seu antecessor, que tinha um registo de guitarras mais seco, mais Metallica por assim dizer. O poderio que a introdutória «I Am Hell (Sonata in C#)» é suficiente para deixar qualquer um de boca aberta, num ataque groove/thrash potente sem paralelo no disco anterior. A antémica «Be Still and Know», cujo refrão fará mossa ao vivo, e os seus solos impecáveis tornam a audição ainda mais compensadora...por enquanto. Segue-se o single «Locust», em que os Machine Head optam por uma postura mais groove, e que a meu ver, menos os favorece. Parece-me que é inclusive a menos interessante música do álbum. «This is the End» devolve a agressividade thrash ao álbum, na música mais «The Blackening» do disco e que, verdade seja dita, juntamente com «I Am Hell (Sonata in C#)», compõe a dupla mais respeitável deste 7º trabalho da banda norte-americana. «Darkness Within» é uma espécie de power-ballad que cai em saco roto, baseada num único riff e numa declamação lamechas de Robb Flynn, o solo salva parcialmente a coisa, mas não deixa de ser o momento "meh" de «Unto the Locust». «Pearls for the Swine» também não deslumbra, mais uma vez o trabalho de guitarras é óptimo, mas a música em si não é nada de especial, apenas amontoa riffs sem qualquer direção definida. Para o fim, «Who We Are» tem um início glorioso a pensar certamente nos concertos, mas mais uma vez, a canção parece andar à deriva, com o acumular de riffs pesadões (ninguém poderá dizer que os Machine Head amoleceram, pelo menos), mas a faltar aquilo que no «The Blackening» fazia toda diferença: estruturas bem definidas e um sentido apurado de canção. Concluíndo, a maior parte das músicas carece de identidade própria (de carisma, se quisermos) aspecto em que os anteriores eram pródigos; mas mesmo assim «Unto the Locust» consegue alcançar um nível positivo, parecendo-me no entanto, inferior a «The Blackening» e até mesmo a «Through the Ashes of Empires». 7,9/10

NIGHTRAGE - «INSIDIOUS»

Há certas bandas das quais só nos lembramos quando lemos uma notícia a dizer que estão prestes a lançar um novo álbum. É o caso destes Nightrage, que até têm no seu portfólio dois discos dignos de registo quando se fala de death metal melódico. São eles «Sweet Vengeance» de 2003 e «Descent Into Chaos» de 2005, onde figuraram Gus G (Firewind e Ozzy Osbourne) e Tomas Lindberg (At The Gates, Lock Up, Disfear, The Great Deceiver). Nos álbuns subsequentes foram perdendo gás com a entrada de músicos que pouco acrescentaram à banda, e porque a própria sonoridade foi perdendo bastante popularidade. Aliás, o último registo da banda em 2009 passou praticamente despercebido, e pouco se soube da banda grega até agora. «Insidous» surge sem grandes expectativas e pode ser recebido com alguma satisfação, devido ao acréscimo de melodia que os Nightrage colocaram nestas canções, como em «Wrapped in Deceitful Dreams» e «Sham Piety». Claro que vamos tendo direito a músicas mais directas do melodeath típico de Gotemburgo em «Hate Turns Black» e na poderosa «Cloaked in Wolf Skin», por exemplo, mas trata-se de um disco mais vocacionado para a melodia do que para a agressividade. Isto permite aos Nightrage fugir a fórmula usual do chamado gothenburg metal e explorar inclusive estruturas próprias do heavy/power metal, com diversos solos de belíssimo efeito, aproximando os Nightrage daquilo que os In Flames e os Children of Bodom andam a fazer. «Insidious» fica infelizmente longe de ser um disco perfeito muito por culpa do excesso de faixas, algumas delas bastante banais como são os casos «Poignant Memories», «Hush of Night» e «Poisoned Pawn»; as três colocadas perto do final do álbum e que borram um bocado a pintura. No final de contas é um bom regresso de uma banda que internamente tem de lidar com um início de carreira fulgurante e posterior curva descendente, e que actualmente sofre pelo facto de propôr uma sonoridade longe dos seus melhores dias. Não vejo no entanto nenhum motivo para um fã de Trivium não gostar deste «Insidious». 7/10

TEXTURES - «DUALISM»

Algo surpreendente este regresso dos Textures, banda de death metal progressivo que nos seus três álbuns anteriores não pautou exactamente pela originalidade. «Dualism» é um passo em frente, não por uma qualquer mudança radical de rumo (é eventualmente um disco globalmente mais pesado), mas antes pela capacidade que os holandeses tiveram de escrever uma série de grandes malhas como «Black Horses Stampede», «Reaching Home» e «Consonant Hemispheres» (esta com um feeling muito Deftones). As referências a Meshuggah a Gojira continuam de alguma forma presentes, e denota-se nas passagens mais melódicas uma mãozinha de post-metal, isto é, Isis e Cult of Luna. «Dualism» deverá agradar a quem procura um disco extremo de death metal, sem perder melodia e riffs desafiantes. Apesar de nem todos os temas serem óptimos, o resultado é sem dúvida apetecível para quem já conhecia os Textures e para quem é fã das bandas acima descritas. 7,5/10

LEPROUS - «BILATERAL»

Os noruegueses Leprous apesar de estarem ligados à famosa editora InsideOut, especializada em progressivo, não são própriamente uma banda conhecida. «Bilateral» deverá ser muito provavelmente o primeiro contacto que alguma vez tiveram com os Leprous, e que de certeza não será o último. Se estiverem dentro da sonoridade progressiva, será difícil não gostarem deste terceiro álbum dos nórdicos. O ecletismo apaixonante demonstrado nestes 10 temas consegue simultaneamente fazer lembrar uma série de bandas conhecidas do meio prog, mas abre espaço para percebermos que não só de óbvias referenciações vive este espantoso disco. Um tema como «Mediocrity Wins» pode ter à primeira audição ter tanto a ver com os Pain of Salvation do «Scarsick», como outros temas remetem para Devin Townsend, Dream Theater, Tool, Diablo Swing Orchestra ou The Mars Volta. O leque é variado, mas incompleto para se perceber o alcance de «Bilateral» que vale pelos seus próprios créditos em espantosas músicas como «Acquired Taste», «Mb. Indifferentia» e «Waste Of Air», onde se ouvem uma panóplia de instrumentos e ideias geniais que catapultam este disco para o topo do que se lançou em 2011. Normalmente fico bastante relutante em atribuir notas máximas, mas neste caso, bastou uma primeira audição para perceber a mina de ouro que tinha entre mãos, ao fim de várias semanas, a opinião mantêm-se. 10/10

Thursday, September 15, 2011

ANTHRAX - «WORSHIP MUSIC»

Parece mentira, mas estou mesmo a ouvir o «Worship Music». Tantos anos a anunciar o disco, que já se pensava que seria apenas um mito, à semelhança do «Chinese Democracy» dos GN'R e do «Time» dos Wintersun. Afinal de contas, passaram-se nada menos do que 8 (!) anos desde que «We've Come For You All» viu a luz do dia. O que se pode numa primeira instância dizer é que «Worship Music» é mais directo que o antecessor e também repleto de melhores músicas; mas também continua a soar a Anthrax de segunda categoria. Temas como «Earth on Hell», «The Devil You Know», «The Giant» e «In The End» são bem orelhudos e provavelmente as melhores canções do álbum, mas também são tão easy listening que daquele feeling thrash punk/hardcore que a banda tinha nos primeiros discos, já muito pouco sobra. Para mais, os próprios Anthrax já não se devem levar muito a sério, para cantarem sobre zombies em «Fight 'Til You Can't». Em vez disso, temos o descomprometido groove metal de «I'm Alive» e «Judas Priest», esta numa homenagem a Halford e companhia. «Worship Music» é no geral um disco simples (demasiado simples creio) com boas músicas mas sem ambições de revolucionar seja o que fôr. 7,3/10

ATTICK DEMONS - «ATLANTIS»

Quem já conhece os Attick Demons decerto saberá da ultra-mega-hiper influência que os Iron Maiden têm no coletivo de Almada, mas continua a ser chocante colocar este «Atlantis» a tocar e não pensar "então mas os Maiden têm um disco novo?". Bem vistas as coisas, isto acaba por nem ser algo negativo, porque se têm qualidade para serem comparados os Maiden, é porque estão a fazer as coisas bem. Nota-se isso neste primeiro longa duração de um grupo que já tem 15 anos de existência. Apesar das comparações aos britânicos («Back in Time» e «City of Golden Gates» são gritantes), os Attick Demons adicionam uma grande parcela de power metal aos temas e acima de tudo, as músicas são extremamente cativantes, com uma epicidade que já se ouve nos Maiden desde há muito, (oiçam «City of Golden Gates» e «Atlantis», por exemplo), e um sentido de melodia próprio do power metal europeu, onde não faltam solos sublimes («Sacrifice» é brilhante). Para um primeiro disco, «Atlantis» fica num patamar muito acima da média, mesmo que originalidade não seja o seu prato forte. 8/10

PATHOLOGY - «AWAKEN TO THE SUFFERING»

Algumas coisas não mudam e parecem mesmo condenadas a manterem-se inalteradas. Afinal de contas, o ser humano é uma criatura de hábitos e conta com o dejá-vú para manter o sentimento de nostalgia intacto, que tanto prazer lhe dá. No metal, por muito que se arranjem modas novas que vão e vêm ao sabor do vento (leia-se sucesso comercial), há estilos que permanecem vivas no underground através de algumas bandas fiéis. Isto aconteceu quando o grunge tomou de assalto a indústria no início da década de 90, voltou a acontecer quando o nu-metal estava na moda e agora com o trend do metalcore e deathcore. É por isso com agrado que se pode de vez em quando ouvir um grupo como os Pathology. Não, não estou a brincar. Eu sei que é brutal death metal com pig squeels e não trás nada de novo, mas soa autêntico e isso por vezes chega. «Awaken to the Suffering» não inventa a roda e bem vistas as coisas nem é nada de especial, mas numa época que cada banda tenta arranjar um nicho de mercado ultra-especializado, há outras que sem prepotências assumem uma faceta contrária e se dedicam a manter viva uma herança (neste caso) relativamente antiga. E depois, goste-se ou não, é difícil não apreciar temas tão bem esgalhados como «Society's Desolation», «A Perverse Existence» e «Hostility Towards Conformity». Um must para apreciadores de brutal death metal. 8/10

ARCH & MATHEOS - «SYMPATHETIC RESONANCE»

Num ano que os fãs de metal progressivo se vão deliciando com as pérolas lançadas pelos Symphony X, Dream Theater, Opeth, Yes e Communic, eis que surge mais um motivo de celebração, desta vez através dos Arch & Matheos. Como o nome sugere, é uma banda encabeçada por John Arch e Jim Matheos, músicos com ligações a Fates Warning, OSI e Gordian Knot. Os restantes elementos também não são desconhecidos, tendo igualmente um background ligado a Fates Warning, são eles: Joey Vera (Armored Saint), Bobby Jarzombek (Halford, Riot) e Frank Aresti (Fates Warning). «Sympathetic Resonance» é um disco que retém algumas particularidades de Fates Warning mas sabe traçar a linha que delimita o território entre as duas, indo entretanto buscar a Ark e Dream Theater bastante influência. «Stained Glass Sky» é o ponto alto do álbum, com um refrão formidável e talento suficiente para se fazerem daqui 3 ou 4 músicas simples de alto calibre, mas não é o único. A pesada «On the Fence» e a semi-balada «Incense and Myrrh» são outros dos momentos altos de um disco sem pontos mortos, capaz de desafiar o ouvinte a cada instante. Sendo o maior de todos a capacidade de habituação ao timbre de John Arch, algo atípico, entre um James LaBrie, Fabio Leone e por vezes a soar a Bruce Dickinson. «Sympathetic Resonance» é uma agradável surpresa e merecedora de uma nota bem acima da média. 8,8/10

Tuesday, September 13, 2011

WOLVES IN THE THRONE ROOM - «CELESTIAL LINEAGE»

Decerto que quem de vós anda mais atento ao submundo do metal, já deve estar familiarizado com o termo cascadian black metal. Trata-se de um sub-género do black metal com largas influências de post-metal, doom e sludge, em que os músicos desenvolvem liricamente uma obsessão por temas ambientais. A música é por norma longa, épica e bastante atmosférica, com recurso a teclados e passagens tribais. Os Wolves in the Throne Room são uma das bandas percursoras do estilo e a referência mais alta neste momento, num movimento que curiosamente atraíu uma legião de admiradores. «Celestial Lineage» é o quarto disco do grupo, e um seguimento lógico da sonoridade que estes norte-americanos vinham desenvolvendo desde «Diadem of 12 Stars» (2006). Músicas como «Thuja Magus Imperium» e «Prayer of Transformation» envolvem-nos num manto negro de reflexão, enquanto que os vários instrumentais permitem estabelecer inteligentes ligações entre os temas, deixando por momentos a música e o ouvinte respirar. Perto do final, «Astral Blood» surpreende pela entrada bastante rockeira, mas apenas inicialmente, dando depois lugar aquilo que os Wolves in the Throne Room fazem de melhor. Quem gostou dos álbuns anteriores, dificilmente não gostará de «Celestial Lineage», sendo verdade que por enquanto, este género soa refrescante e relativamente original. Mas não podemos deixar de imaginar o que será destes Wolves in the Throne Room daqui por uns anos. A fórmula eventualmente irá ficar gasta e com dificuldades de evolução musical. O mal de tanto querer encontrar um nicho de especialidade poderá vir a significar a morte prematura de bandas com enorme potencial, mas presas a um estilo hermético como este tal de cascadian black metal? Esperemos que não. 8/10

ARKONA - «SLOVO»

«Slovo» é o regresso de uma das mais emblemáticas bandas russas e um dos símbolos do folk metal actual. Isto tendo em conta que os Arkona são consideravelmente mais agressivos do que 95% dos grupos do género, e também mais complexos e variados. A prová-lo está este sexto disco que promove aproximação entre o folk festivo do single «Stenka Na Stenku» e o quase black metal de «Bol'no Mne», cuja linha de teclados faz remotamente lembrar o «Ad Astra» dos Arcturus. Impressiona a dinâmica vocal de Masha que oscila entre guturais de respeito divididos entre death (pensem no Nergal) e o black metal (também em vários registos), e os limpos cujo idioma russo ajuda a dar aos temas uns exotismo particular, por culpa da forma de entoação muito própria da língua mãe dos Arkona. «Slovo» não é tão vistoso como o anterior «Goi Rode Goi», mas não deixa de ser um excelente disco de folk metal, e até o melhor que o género viu ser editado em 2011. 8,2/10

Friday, September 09, 2011

GORATH - «APOKALYPSIS - UNVEILING THE AGE THAT IS NOT TO COME»

Os Gorath são um banda da Bélgica que têm tido uma carreira relativamente discreta, apesar da sonoridade que praticam estar até na mó de cima. Eventualmente se fossem oriundos da Suécia ou Noruega era mais provável que já tivéssemos ouvido falar deles, mais não seja em 2010 quando lançaram «MXCII», um álbum que veio a revelar-se um tesouro escondido do black metal progressivo. «Apokálypsis - Unveiling the Age that is not to Come» é já o quinto álbum de originais dos Gorath e um portento de black metal intrincado e bem composto, com grande variação e sobretudo com muito bom gosto. Algumas influências de Blut aus Nord e Deathspell Omega aqui e ali, não empalidecem um disco repleto de grandes momentos, como «The Seven Seals» (esta com resquícios de Necrophobic) e «Le Porteur de Lumière». A minha predileção vai no entanto para «Beasts from the Earth and the Sea», onde os Gorath mostram argumentos suficientes para deixarem de ser uma banda desconhecida do público metaleiro, com a utilização de paisagens sonoras passíveis de figurar num disco de post-metal, tal como aquilo que os Twilight e Wolves in the Throne Room costumam fazer. Um álbum surpreendente que urge descobrir. 8,7/10

SINNER - «ONE BULLET LEFT»

Original? Nem por sombras...mas soa bem e por vezes é isso que importa. O décimo sexto (!!) álbum dos Sinner é um bom disco de rock/metal melódico entre Whitesnake e Thin Lizzy, com ótimas malhas como «Back on Trail» e «The One You Left Behind». É certo que possui vários fillers, ou canções menos cool, como «Atomic Playboys» e «Mind Over Matter», mas num registo tão desprovido de sentido de criatividade, seria difícil não se ter pelo menos alguns momentos medianos. «One Bullet Left» vale essencialmente pela postura go easy da banda germânica, que depois de dois registos mais speedados «There Will Be Execution» (2002) e «Mask of Sanity» (2007), atirou-se às sonoridades mais rockeiras em «Crash & Burn» (2008) e posteriormente neste «One Bullet Left». Engraçado para o momento, mas no final de contas, descartável. 6,5/10

Thursday, September 08, 2011

OPETH - «HERITAGE»

Os Opeth devem ser das poucas bandas de death metal (ainda que não sejam death metal "puro") que podem dar-se ao luxo de aligeirar o seu som sem serem minimamente contestados. Aconteceu por alturas do «Damnation» e volta agora a acontecer com um disco totalmente limpo, sem guturais e ultra-melódico; e a verdade é que «Heritage» merece ficar num patamar idêntico a qualquer um dos discos mais recentes da banda sueca, apesar de ser menos completo de que um «Blackwater Park» ou um «Ghost Reveries». O riff muito ao jeito dos Spock's Beard que abre «The Devils Orchard» dá o mote para aquele que é o mais retro dos álbuns de Opeth e onde Mikael Akerfeldt anuncia que "Deus está morto", qual Nietzsche do metal, atirando o ouvinte num carrossel de emoções que revela ser o melhor momento de «Heritage». Este 10º álbum dos Opeth é como que uma espécie de «Damnation» parte dois, mas mais requintado. Enquanto que o trabalho de 2003 foi um registo mais nostálgico e sentimental, «Heritage» é feito de maior ecletismo e requinte, chegando a soar a uma banda totalmente diferente daquilo a que estamos habituados, como por exemplo, no space rock de «I Feel the Dark» ou no inesperado prog rock up tempo de «Slither» que faz lembrar Dream Theater, quiçá uma influência da recente tour que ambos partilharam em 2009. «Heritage» é portanto o álbum assumidamente mais prog dos Opeth, onde deixam totalmente de lado o death metal e se concentram na faceta melódica, como «Famine», «Haxprocess» e mais tarde «Folklore» exemplificam. A fase intermédia composta pelas duas primeiras acaba mesmo por tirar um bocado de "pica" ao disco, mesmo com aquele ritmo tão Cathedral metido ali por volta dos 5 minutos de «Famine» com direito a flauta e tudo. «The Lines in my Hand», porém, volta a ter um ritmo frenético com Martin Mendez a deliciar os fãs da guitarra baixo, voltando ao prog atmosférico em «Folklore», este, apesar de tudo, um dos momentos altos de todo o alinhamento. «Heritage» é um trabalho extremamente introspectivo e quase totalmente desprovido de peso, razão pela qual os fãs do material mais death metal irão torcer o nariz e que ocasionalmente, durante a sua audição, desejará ser abruptamente surpreendido por um riff mais pujante ou pelos growls de Akerfeldt, coisa que nunca acontece, daí serem compreensíveis as críticas de que «Heritage» é meio-álbum de Opeth. Não obstante, analisando a qualidade geral de «Heritage», é inequívoco que os Opeth (sobretudo Akerfeldt) conquistaram por direito próprio a liberdade de fazer o que bem entendem, porque pelo andar da carruagem não irão conseguir (nem que façam por isso) gravar um mau álbum. 9/10

Wednesday, September 07, 2011

DREAM THEATER - «A DRAMATIC TURN OF EVENTS»

Muito se falou da partida de Mike Portnoy e da influência que isso teria na vida dos Dream Theater, que se colocaram à margem das escolhas do talentoso baterista e trancaram-se na sala de ensaios a gravar aquele que é o seu 11º álbum de originais. O título acaba por parecer representar precisamente essa repentina viragem na carreira dos norte-americanos que perderam um dos mais influentes membros e um espantoso músico. Mas também pode querer significar uma viragem no sentido oposto, ou seja, a saída de Portnoy poderá ter sido vista e sentida de forma positiva pelo grupo que edita aqui o seu melhor álbum desde do «Six Degrees of Inner Turbulence». Para tal contribui uma roupagem mais descontraída e até light que «A Dramatic Turn of Events» possui, com algumas similaridades com o mal amado «Octavarium», mas em termos musicais, bem superior. Para trás fica aquela aura negra que vinham adotando desde do «Train of Thought» e que nem sempre resultava bem, especialmente no mediano (para os estandartes dos Dream Theater) «Systematic Chaos». «On the Backs of Angels» é um instant winner. Uma canção que junta tudo aquilo que esperamos de uns Dream Theater em grande forma: mistura de melodias simples e intricadas, atmosfera e um grande refrão. É um cartão de visita impecável, em que James La Brie tece uma crítica social de onde se destaca o verso "Riding out the wave, content to feed on the machine, Leading us to death, the new American dream, You’re blinded by your hunger, Beware, your days are numbered". A liberdade composicional audível neste álbum supera muito do que temos ouvido dos Dream Theater desde 2002, dando-se ao luxo de fazer um tema tão groovy e atípico como «Build Me Up, Break Me Down», com um refrão tão pop que dói, apesar de ser no mínimo, brilhante. É também um álbum que usa e abusa de ritmos baladescos, como no início de «Lost Not Forgotten», em «This is the Life», grande parte da «Outcry» e «Beneath the Surface» que encerra o álbum. No entanto, são músicas dotadas de melodia cativante e irresistível, digna de um festim dos deuses do prog. Por falar em prog, «Lost Not Forgotten» é algo que tão cedo ninguém irá esquecer, sobretudo a prestação abismal de John Petrucci, naqueles dois minutos iniciais e mais à frente na secção intermediária da canção. Para aqueles que possam já ficar com receio da perca de peso (que nunca foi um ponto fundamental em Dream Theater), que por um lado é real, adiante-se que músicas como «On the Backs of Angels», «Lost Not Forgotten» e «Bridges to the Sky» têm muitos riffs pesadões que auferem ainda mais dinâmica ao disco. Penso que «A Dramatic Turn of Events» fala por si só e não precisa de grandes descrições. Quem conhecer e gostar minimamente dos Dream Theater irá certamente devorar estes nove temas, quem ainda não conhecer ou não gostar, tem aqui mais uma oportunidade para entrar num mundo de música nada menos do que perfeita. Lugar cativo no top de álbuns de 2011. 10/10

Sunday, September 04, 2011

NEGATIVE PLANE - «STAINED GLASS REVELATIONS»

Tomei contato com os Negative Plane pela primeira vez recentemente através de um leitor aqui do site que me recomendou a audição deste «Stained Glass Revelations», que reconheci de imediato pelo relativo hype de que foi alvo principalmente no Metal Storm. Mãos à obra, em tempos de férias, resolvi dar uma chance aos Negative Plane, que de imediato cativaram toda a minha atenção. Primeiro através do ambiente fantasmagórico e retro do disco, que desde do artwork até à produção, parece ter sido gravado algures no início da década de noventa numa cave qualquer. A fusão de black metal com trejeitos próprios do doom, fazem deste álbum um must para todos os que vibram com discos como «De Mysteriis Dom Sathanas», «Storm of the Lights Bane» e «In the Nightside Eclipse». A utilização dos teclados por parte dos Negative Plane é nada menos do que soberba, usando-os para dotar as músicas de um ambiente horripilante como em «Angels Veiled of Bone». As músicas são por norma longas e épicas, exceto 4 instrumentais em que os teclados são mais uma vez preponderantes. «The One and the Many» é a música que vocês precisam de ouvir: o início muito Watain é simplesmente devastador, desenvolvendo para um riff progressivo de ir às lágrimas e com uma espécie de refrão que faz arrepiar o mais calejado dos black metallers. É impressionante como o duo trio nova-iorquino consegue recriar a fase auréa dos Dissection, sem soar a clone, e ainda consegue com tanta pinta compôr músicas tão longas e cativantes ao mesmo tempo, como no épico de 11 minutos que encerra o álbum e lhe dá título. Penso que neste caso não há muito mais para dizer, é um disco que sem ser original, cumpre a sua tarefa de tal forma bem, que reserva a si próprio o direito de ser tratado como um clássico. Honra que não é de forma alguma descabida. Um dos grandes álbuns de 2011. 9,5/10

EAK - «MUZEAK»

EAK (Extraterrestrial Alternative Knowledge). O nome da banda já deixa antever qualquer coisa de especial, e mesmo não tendo qualquer referência em redor deste grupo português, a verdade é que um álbum como «MuzEAK» deixa-nos tudo, menos indiferentes. A sonoridade modernaça dos EAK mistura uma série de estilos diferentes como o post-rock de «Do You Feel Lucky» até ao post-hardcore de «Always Remember», onde são audíveis influências de Converge («Hand Solo Debut» é porém a malha mais Converge do álbum), e até onde um riff thrash que encerra a música não soa deslocado. Já «A Glass of Sand» é uma descarada aproximação ao metalcore (sem as vozes maricas) e «Black Rose (Goodbye)» volta a atirar o ouvinte para ambientes íntimos e envolventes de uns Cult of Luna, como se de repente os EAK se transformassem numa banda totalmente diferente. O interessante que tudo faz sentido. Mesmo com estas oscilações que percorrem o álbum, tudo soa compacto e acima de tudo...bem. Até o sludge gigantesco de «Ears Have You» e o caoticismo de «You Play You Pay», que pelo título deixa adivinhar uma crítica à forma como se organizam muitos concertos por cá. «MuzEAK» é quanto a mim, que pouco conhecia dos EAK, uma total e agradável surpresa, pela maturidade e determinação impressionantes, de quem parece já ter uma carreira considerável por detrás. Ao segundo álbum de longa duração os EAK são uma confirmação da boa saúde que o metal português respira actualmente. 8,3/10

BLOOD RED THRONE - «BRUTALITARIAN REGIME»

A Noruega não é um país com grande tradição no death metal, podendo mesmo dizer-se que actualmente, os Blood Red Throne são o expoente máximo nacional do género. A comprová-lo está uma discografia repleta de bons álbuns, algo esquecidos no turbilhão do death metal sueco/americano, que deixa pouca margem de manobra para uma banda como os Blood Red Throne. O que não deixa de ser estranho depois de constatarmos a qualidade de um álbum como este «Brutalitarian Regime», que despeja uma infernal agressividade por entre partes balanceadas e solos estonteantes, como o compêndio de death metal que é «Trapped, Terrified, Dead». Apesar da enorme influência de Deicide, os Blood Red Throne sabem abrir o leque de opções, tornando as músicas variadas e dinâmicas, como no caso do tema título onde um solo à Nevermore constitui uma surpresa e «Parnassian Cacoepy» se revela um belíssimo tema de Cannibal Corpse atravessado com o death metal sueco de uns Vomitory. «Brutalitarian Regime» é por seus próprios créditos um óptimo álbum de death metal, com o doseamento certo entre peso, agressividade e melodia como podem constatar em «Proliferated Unto Hemophobia». Grande cover de Pestilence («Twisted Truth») no final do álbum. 8/10

Saturday, September 03, 2011

ZOMBIE INC. - «A DREADFUL DECEASE»

O que é que membros dos Disbelief, Hollenthon, Lacrimas Profundere, Collapse 7 e Drauggard têm em comum? Zombies. A paixão pelos filmes de terror e suas personagens remonta ao heavy metal mais arcaico, mas de vez em quando lá surge uma banda que aposta em falar exclusivamente deste tópico. No caso dos Zombie Inc. os personagens são...os mortos-vivos. Num trabalho conceptual sobre um eventual zombie-apocalypse (termo bastante em voga nos dias que correm), o quinteto debita um death metal que fica entre as escolas norte-americana (nos arranjos e estruturas) e sueca (nos vocais e som das guitarras). Entre os Necrophagia e uns Grave, os Zombie Inc. têm os seus momentos de glória como em «Challenge of the Undead» e «Hordes Unleashed» que têm enorme potencial de destruição ao vivo, factor que parece ter influenciado a feitura destes temas: parecem feitos para vingar nos concertos. Mas creio que ainda é cedo para afirmar se temos banda. Tendo em conta que nada do que se pode aqui ouvir é original, falta perceber se os Zombie Inc. terão capacidade de sobreviver ao hype que se adivinha. Um bom álbum de estreia para já. 7,6/10

THE DEVIL WEARS PRADA - «DEAD THRONE»

Há quem diga que o nome que se dá uma banda é fundamental para o futuro sucesso da mesma, mas com o recente trend do metalcore, essa afirmação deixou de fazer muito sentido. A provar está uma banda chamada The Devil Wears Prada, vinda dos Estados Unidos e cujo metalcore esteve, nos primeiros três álbuns, longe de merecer um lugar de destaque no panteão dessa mal amada sonoridade. Ora, depois do EP «Zombie» ter dado a ideia de que os TDWP estavam em vias de se tornarem numa banda mais séria, eis que «Dead Throne» confirma essa viragem e catapulta o grupo para um nível bem mais positivo do que anteriormente. Não que tenham efetivamente mudado assim tanto, mas nota-se que «Dead Throne» é um álbum mais decidido, com boas canções e muito mais focado. Deixámos (felizmente) de ter o pseudo humor de «Dogs Can Grow Beards All Over», «HTML Rulez D00d» e «Assistant to the Regional Manager» para dar lugar a uma vertente mais obscura como em «Dead Throne», «Mammoth», «RIT» e «Forever Decay». É de facto um disco com uma roupagem mais pesada e intensa, que congrega todos os ingredientes típicos do metalcore, mas que o faz com bastante classe como no caso de «My Questions» que até tem um ligeiro toque de Trivium. Parece-me ser de longe o álbum mais bem conseguido dos TDWP, se estiverem atentos ao metalcore dêm uma chance a este disco. 8/10

CRIMINAL - «AKELARRE»

Se falarmos das bandas mais underrated de sempre, um lugar para os chilenos Criminal fica de imediato reservado. Mesmo não sendo portentos de originalidade, os álbuns do grupo (7 no total) são descargas de bom thrash/death metal, onde «Sicario» de 2005 se destaca como ponto alto da carreira da banda agora sediada aqui ao lado no País Basco. «Akelarre» é mais um frenético exercício de thrash com laivos death, com tudo para agradar a fãs da velha e nova guarda. Pelos riffs pujantes de «Order Fom Chaos» e «Resistance is Futile», completos com solos à Hanneman/King, perfeitos para quem gosta de thrash sangrento. Os fãs de Sepultura podem também encontrar uma desculpa para ouvir os Criminal através de «State of Siege» e quem gosta de Arch Enemy não vai de certeza desgostar de «Feel the Void». Com este álbum, os Criminal não dão nenhum salto em termos de sonoridade, continuam iguais a si mesmos, mas podem porventura vir a lucrar com o actual interesse em bandas thrash metal. Um disco sólido q.b. e indicador da perserverança dos Criminal. 7/10
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