Thursday, October 20, 2011

LOU REED & METALLICA - «LULU»

Antes de me debruçar sobre «Lulu», é urgente dizer que isto não é o sucessor de «Death Magnetic», e ao que parece nem deve estar creditado como pertencente à discografia de Metallica, mas sim como um projecto paralelo ou uma colaboração com o lendário Lou Reed. Dito isto, talvez desta forma se afaste todo aquele preconceito que se instala inevitávelmente desde 1991 quando vamos ouvir um disco de Metallica pela primeira vez. Liricamente inspirado nas peças «O Espírito da Terra» e «A Caixa de Pandora», do autor alemão Frank Wededkind, «Lulu» é uma obra experimental que suplantada a estranheza das primeiras audições é bem possível que esteja aqui muito do melhor material que James Hetfield e Lars Ulrich escreveram desde que se juntaram em 1981, mesmo que neste caso seja com a activa colaboração de Lou Reed. Para apreciar tal feito é essencial perceber que a sonoridade tem de encaixar o contexto e nesse sentido, músicas como «The View», «Dragon» e «Pumping Blood» são de um avantgarde assinalável, que mesmo sendo possível captar a milhas o familiar som da guitarra de Hetfield, conseguem introduzir a fórmula Metallica numa nova esfera de ideias que soam totalmente refrescantes. O registo de «Lulu» chega a ser mesmo desconcertante, com as três primeiras músicas a deambularem pelo spoken word de Lou Reed e ocasionais repetições vocais de Hetfield e riffs tirados do «Load» e do «ReLoad», mas tudo com grande enfâse na criação de uma atmosfera decadente e boémia que assenta que nem uma luva a conteúdo lírico do disco parecendo por vezes, pasme-se, que estamos a ouvir um álbum de sludge rock. «Mistress Dread» vem dar um safanão dos grandes com um ritmo vindo directo de um «Kill 'Em All» sob o qual Lou Reed declama as suas deixas, que por vezes soam um tanto aborrecidas, sobretudo nos temas maiores como «Cheat on Me», «Dragon» e «Junior Dad». Já as melodias de «Little Dog» e «Iced Honey», revestem-se de um poder e charmes especiais, a primeira pelo toque western, a segunda pela coragem dos 8 minutos e tal de som acústico cheio de preciosos detalhes de guitarra. Como de costume, «Lulu» será aquele disco no qual se irá bater infindávelmente até se perceber que afinal, até tem coisas muito boas, para finalmente emergir como pioneiro e à frente do seu tempo. Afinal de contas a arte quando rompe com um paradigma estabelecido sempre provoca polémica. Felizmente os Metallica ainda não se renderam aos seus fãs, e continuam pelos vistos a ter a "fome" necessária para quererem ser diferentes e ambiciosos, mesmo que isso signifique um desvio na sua carreira. Pena que quando acabarem já não restarão muitas bandas com este poder visionário. 9/10

3 - «THE GHOST YOU GAVE TO ME»

Os 3 são um banda curiosa de rock/metal progressivo e alternativo que soube traçar um caminho interessante entre bandas como Tool, Porcupine Tree e o rock pop mais mainstream. «The Ghost You Gave To Me» é assim o culminar de um grupo que demonstra uma sensibilidade incomum para compôr temas simples e directos, mas cheio de pormenores que os afastam do imediatismo de um grupo puramente pop. O primeiro tema, «React» é um perfeito exemplo disso: podia facilmente passar numa rádio à hora de almoço se tivesse uns arranjos um pouco diferentes. Assim louva-se a banda por não se render ao óbvio e ter coragem de lançar um álbum tão desafiante, quer para adeptos de metal, quer para ouvintes de sonoridades mais acessíveis. «Sparrow» é outra música que faz essa ponte de forma perfeita. Infelizmente nem todas as músicas são instant winners. A secção intermédia do disco é custosa, pela repetição de fórmula a que os 3 se devotam, levando demasiado à letra o conceito de não mexer em equipa que ganha. Não deixa até de ser estranho que uma banda que se tem demonstrado ser tão irreverente em misturar rock, prog, hard rock e pop, tenha tanta dificuldade em compôr 10/11 músicas em que sejam todas boas. O tal conceito de subjectividade emerge aqui para dizer que para mim uma música pode não ser boa, mas para outra pessoa pode bem ser a melhor malha do álbum. O que fica de «The Ghost You Gave To Me» é que, mesmo não sendo a melhor coisa que os 3 fizeram («Wake Pig» continua a estar lá em cima), continua a mostrar que já mereciam um estatuto acima do que actualmente possuem. 8/10

BASTARD PRIEST - «GHOULS OF THE ENDLESS NIGHT»

Já se sabe que o retro está na moda e por isso é normal que surjam várias bandas que se dediquem a este exercício nostálgico. Este acaba por ser o ano e que creio ter usado mais vezes a palavra retro. Por vezes isso acaba por nem ser assim tão negativo, já que aqui e ali vão brotando alguns projectos de interesse, nomeadamente os Bastard Priest, que propõem com «Ghouls of the Endless Night» um black/thrash metal do fundo do poço recriando aquilo que Celtic Frost, Venom e Hellhammer faziam quando apareceram. Alguns resquícios a Mayhem e Watain enriquecem um disco que parece tão datado, que merecia só ter sido lançado em formato K7. O início de antologia de «Enter Eternal Nightmare», o riff intermédio contagiante do tema título, o doom gigantesco de «Poison» que relembra os seminais Bethlehem e os ataques de «Sacrilegious Ground» e «Fucking Slaughter» fazem deste álbum um digno sucessor de um clássico como «Apocalyptic Raids». 8,5/10

BLACK TUSK - «SET THE DIAL»

Nem todo o sludge é podre ou virado para ritmos lentos e os Black Tusk são a prova disso mesmo. Um pouco à boleia do sucesso dos Mastodon e dos Baroness, a banda americana tem crescido com o seu sludge rock sulista conquistando fãs um pouco por todo o lado. «Set the Dial» é o terceiro álbum e um compêndio de riffs lamacentos cheio de groove southern rock e algum stoner herdado dos Electric Wizard. Mas à parte de alguns temas mais invocativos, como «Ender of All», «Mass Devotion» e «Resistor», o disco não é muito mais do que um punhado de riffs que já nos fartámos de ouvir em outras bandas do género, ficando a faltar algo que destaque os Black Tusk das demais bandas de sludge rock/metal actuais ou de swamp metal como lhe chamam os Black Tusk. 6/10

Wednesday, October 19, 2011

ICED EARTH - «DYSTOPIA»

A carreira atribulada dos Iced Earth a partir de 2004, quando Matt Barlow saiu pela primeira vez da banda, tem sido um dos grandes factores de instabilidade do grupo, acrescido pelo facto de entretanto ter trocado por mais três vezes de vocalista, uma das quais o momentâneo regresso de Barlow para gravar «The Crucible of Man» em 2008. Acrescente-se ainda que desde «Horror Show» (2001) que os Iced Earth não gravam um álbum consensual e representativo da qualidade que até esse disco haviam demonstrado. «The Glorious Burden» (2004) foi demasiado afectado pelos acontecimentos do 9/11, salvando-se desse disco 2/3 músicas verdadeiramente boas. O trabalho conceptual de «Framing Armageddon» e «The Crucible of Man» foi tudo menos pacífico, o primeiro porque os temas mesmo sendo a sua maioria bons, tinham sido gravados para a voz de Barlow e isso notava-se; o segundo com Barlow na voz, não tinha (à semelhança de «The Glorious Burden») músicas capazes de resistir ao teste do tempo. Apesar de tudo, foram os álbuns possíveis e na verdade, se no contexto de Iced Earth podem não ser os melhores álbuns, fora dele, seriam sempre aclamados por toda a gente. «Dystopia» traz então Stu Block para os vocais. Um canadiano, conhecido pela sua colaboração com os prog deathsters Into Eternity e que empresta um registo vocal que tanto tem de Matt Barlow como de Ripper Owens, chegando mesmo a dar a ideia de que ambos teriam sido chamados por Jon Schaffer para participar no álbum. A sua eficiência fica desde logo provada no tema título, mas com maior profundidade quando percebemos que Block consegue fazer registos tão díspares como os utilizados em «Anguish of Youth» e «Boiling Point». Podem não atinar com a aproximação que ele faz aos dois anteriores vocalistas, mas não o podem acusar de ser uma má escolha. Creio inclusivamente que pode vir a afirmar-se como um dos melhores vocalistas de metal da actualidade. Talvez não com este «Dystopia» mas com um próximo registo feito inteiramente para a sua voz. Outro factor que faz de Stu Block uma aposta ganha é a imediata capacidade que teve em produzir letras para a maior parte das músicas contidas em «Dystopia», algo que para um newcomer em Iced Earth, não se adivinhava nada fácil, sabendo nós a forma quase "ditatorial" com que Schaffer rege os seus Iced Earth. Ademais, as letras acabam por ter um peso fulcral no disco que remete para o conceito de "distopia" (o contrário de "utopia") em que Schaffer e Block recorrem a filmes tão famosos como «Dark City», «V de Vingança», «Equlibrium» e «Soylent Green» para traçar cenários de opressão que músicas "próprias" como «Dystopia», «Anthem» e «Days of Rage» tão bem complementam e retractam. Quanto às músicas em si, numa primeira abordagem o álbum parece despido de malhas duradouras tal como nos últimos três trabalhos. A disposição das faixas surge numa lógica semelhante a «The Dark Saga» (1996) e «Something Wicked This Way Comes» (1998), capturando desde logo um feeling nostálgico, e com isto começam inevitávelmente a crescer dentro de nós. Desde logo os refrões de «Dystopia» e «Anthem», as melodias de Iron Maiden em «Dark City» (talvez a melhor música que Schaffer escreveu para este disco), as baladas algo lamechas mas catchy em «Anguish of Youth» e «End of Innocence» (que ficam de qualquer modo a milhas das míticas «Watching Over You» e «I Died For You»), e as thrashalhadas de «Boiling Point» e «Days of Rage» que relembram «Violate» e «Greenface». O material de «Dystopia» aparece-nos assim mais directo e orgânico relegando (felizmente) para segundo plano os coros e as cordas épicas dos últimos três discos. É verdade que os Iced Earth de hoje já não são aquela banda grande que a cada álbum prometia sempre mais, e que durou até 2001, mas é bom constatar que ainda conseguem lançar um disco de bom heavy/power/thrash metal e ainda mais com bastante pertinência lírica no que toca aos negros dias em que vivemos. 7,8/10

Friday, October 14, 2011

INSOMNIUM - «ONE FOR SORROW»

«One For Sorrow» pega onde o anterior álbum «Across the Dark» tinha terminado e mais uma vez nos oferece um melo-death de requinte com raízes em Dark Tranquillity. A comparação com os suecos é um enorme elogio para um grupo que conseguiu estabelecer a sua própria base de fãs, sendo a par dos Ghost Brigade e dos Before the Dawn uma das bandas mais interessantes deste metal melancólico que se faz na Finlândia (os três grupos são do mesmo país). Arriscaria ainda assim a dizer que «One For Sorrow» é superior a «Across the Dark» que se desenvolvia numa aura cinzenta, por vezes pouco definida e à procura da fórmula ideal. Neste novo esforço, os Insomnium traduzem melhor aquilo que têm vindo a fazer, e que pôde desde logo ser audível no single de avanço, «Weather the Storm». Curiosamente o single foi remetido para faixa bónus da edição especial e que vale totalmente a sua aquisição. O restante disco segue uma linha semelhante, mais up-tempo ou mais down-tempo, não interessa, vale sim o desfile de riffs hipnotizantes como aqueles que abrem o instrumental «Inertia» e a primeira faixa cantada, «Through the Shadows». Apesar da maior parte do disco ser envolvida na melancolia própria deste estilo de sonoridade, aqui e ali vamos tendo algumas malhas mais tipicamente gothenburg death metal como «Every Hour Wounds» e grande parte de «Song of the Blackest Bird». Dinâmico e variado, mas sobretudo com muita classe, «One For Sorrow» é um aprimorar do «Across the Dark» que já de si era um óptimo trabalho. 8,5/10

GRAVEWORM - «FRAGMENTS OF DEATH»

A entrada em força de «Insomnia», a primeira malha deste «Fragments of Death», anuncia um regresso à boa forma dos italianos Graveworm, depois de 3 álbuns totalmente dispensáveis em que o grupo se tornava cada vez mais amigo das sonoridades gothic rock metal, em vez do black metal gótico e melódico que tão bem fazia por alturas de «Scourge of Malice» e «Engraved in Black». Se esse primeiro tema traz-nos "esses" Graveworm à memória, a verdade é que o restante não é tão nostálgico mas ainda assim com bons momentos, desde logo em «Only Dead in Your Wake», que mais parece uma malha de death metal com infusões de Arch Enemy. Já a partir de «Absence of Faith» e «Living Nightmare» surge de novo a aproximação aos terrenos do tal gothic rock metal. «Fragments of Death» é uma audição agradável, mas extremamente dispersa que vai buscar a outros estilos musicais influência para fabricar temas de gothic black rock, apimentando a mistura com uma produção bem cheia. O problema disto é que tudo vai soando a dejá-vú. «The World Will Die Flames» é um esforço dos Graveworm em soarem brutais e catchy em simultâneo, trazendo à memória o famoso «Thornography» dos Cradle of Filth em que misturavam precisamente as facetas black metal e gothic rock. Nesta música as parecenças são mais que muitas. Em «See no Future» então não se fala, apesar de termos de admitir que juntamente com as duas primeiras malhas, é aqui que os Graveworm brilham. Não façam portanto um julgamento precipitado, sugiro mesmo que oiçam este «Fragments of Death» que tem as suas virtudes («Anxiety» tem algo de Moonspell e «The Prophecy» é uma faixa bem elegante, por exemplo) e tirem as vossas próprias conclusões. 7/10

SÓLSTAFIR - «SVARTIR SANDAR»


O novo álbum dos emergentes Sólstafir não é pêra doce de se fazer uma review. A dose de avantgardismo que o colectivo islandês debita é complexo e, usando uma expressão inglesa, ever-evolving. Cimentada numa atmosfera fria que nos atira de imediato para as desoladas terras do norte da Europa, a sonoridade melancólica de «Svartir Sandar» é envolvente e cativante, declamando palavras num tom pesaroso como no início de «Fjara», mas fazendo-o com uma classe invejável. Digo que não é fácil apreciar este disco, porque é daquele tipo de trabalhos que não se esgota em meia dúzia de audições, e que vai revelando novos detalhes a cada novo spin. Ainda mais por ser um álbum bastante longo, dividido em duas partes, cada uma com aproximadamente 40 minutos. Também não é fácil estabelecer comparações sonoras, já que os Sólstafir conseguiram desenvolver uma magia muito própria, que ficou bem patente na actuação em Dezembro último no Music Box. É um grupo com uma personalidade muito distinta, capturando as paisagens post-metal de uns Cult of Luna e adicionando-lhe um cunho doom psicadélico, com rock e folk à mistura. Como vêem, «Svartir Sandar» não é de todo um disco óbvio. Requer tempo e dedicação, contra a tendência de consumo rápido que tem assolado o metal nos últimos tempos. Faz bem ouvir um grupo que tem muito mais para além do óbvio. Talvez daqui por uns meses tenha coragem de lhe atribuir uma nota.

STEVEN WILSON - «GRACE FOR DROWNING»

Este é até ao momento o ano do progressivo. Os vários álbuns excelentes que têm sido editados ao longo do ano, fazem desta sonoridade, a rainha de 2011 e aqui fica mais um álbum para juntar ao lote. O autor não é sequer suspeito, tendo já recentemente lançado com os Blackfield, «Welcome to my DNA» um registo de prog rock muito acima da média. «Grace For Drowning» movimenta-se em águas bem distintas dos Blackfield, mas igualmente prodigiosas. Mais focados na atmosfera, na delicadeza dos teclados e na riqueza de pormenores, este é disco repleto de momentos mágicos. Seja na deliciosa «Remainder de Black Dog» ou na gentil e transcendente «Reform to Form a Star». Isto no primeiro disco, precisamente intitulado «Reform to Form a Star». No segundo, «Like Dust I Have Cleared From my Eye», temos direito a um mega-épico de 23 minutos chamado «Raider II» onde Steven Wilson dá largas à sua criatividade e faz deste empreendimento uma faixa simplesmente brilhante. «Grace For Drowning» não é claramente um disco de metal. Tem ocasionalmente algumas partes que se colam ao estilo, mas é primeiramente um álbum de prog rock atmosférico, para o qual é essencial estarmos abertos a doses de sensibilidade incomuns e raras no metal. Oiçam «Belle De Jour» por exemplo. Mas boa música é sempre boa música, não interessa o estilo de que estejamos a falar e por isso, «Grace For Drowning» será sempre um grande disco, independentemente da abordagem estilística aqui representada. 9/10

Thursday, October 13, 2011

ABSU - «ABZU»

Sabia-se que à partida seria extremamente difícil aos Absu suplantar aquele que será nesta altura o clássico da banda, «Tara», mas quando em 2009, Proscriptor anunciou dois álbuns auto-intitulados para serem lançados em datas separadas percebeu-se que a banda norte-americana estava longe de ter o poço seco. A aproximação a terrenos black thrash elevou os Absu ao patamar de incontornáveis do género, estatuto que «Abzu» vem cimentar. Como peculiaridade principal, «Abzu» é um álbum curtíssimo para os estandartes dos Absu, não chegando aos 37 minutos, mas traduzindo-se numa experiência mais directa e intensa. O festim thrash de «Earth Ripper» e «Circles of the Oath» são sinónimo disso mesmo. Com construções simples, sem a complexidade de álbuns anteriores, os Absu despem as canções daquela aura mitológica, para se tornarem numa banda mais aproximada dos Slayer e Mercyful Fate, numa perspectiva black metal claro. Apenas a derradeira «A Song for Ea» com os seus 14 minutos de duração contraria esta tendência afirmando-se como a música mais rica deste conjunto de dois álbuns. Gostar desta aproximação mais directa dos Absu, depende única e exclusivamente do gosto de cada um, mas o mais provável é que os fãs continuem a adorar os Absu como até aqui, até porque não perderam nenhuma das suas qualidades. 9/10

CHARRED WALLS OF THE DAMNED - «COLD WINDS ON TIMELESS DAYS»

O segundo disco dos Charred Walls of the Damned tem tudo para passar despercebido até dos fãs do Ripper Owens. É ele o cantor de serviço deste projecto de Richard Christy que recrutou nada menos do que Steve DiGiorgio, Tim Ripper Owens e Jason Suecof. Se o primeiro álbum ainda recebeu algumas críticas positivas pela abordagem clássica ao heavy metal, misturado com power metal bem agressivo, este segundo álbum não condensa primeiramente o efeito surpresa e muito menos algo que o torne num disco obrigatório, ainda mais numa altura em que são lançados tantos discos que requerem a nossa atenção. «Cold Winds on Timeless Days» é um disco morno sem malhas que se destaquem e uma sonoridade que verdade seja dita não aquece nem arrefece. Muito também por culpa de Ripper Owens cujo efeito comparação a que está sujeito pode atirar com os Charred Walls of the Damned para um relativo anonimato, o que até nem será própriamente um escândalo tendo em conta a qualidade mediana de «Cold Winds on Timeless Days». Para quem for fã dos trabalhos de Ripper Owens este é um disco a ter em conta, os restantes podem bem viver sem isto. 6/10

TAAKE - «NOREGS VAAPEN»

Não são já muitos os grupos de primeira linha do black metal que praticam a sonoridade mantendo-se fiéis o estilo cru que os anos 90 celebrizaram. A maior parte das bandas preferiu o termo evolução, para saltar do barco em direcção a paragens mais teatrais, rockeiras ou progressivas. Os Taake são uma excepção à regra. Ouvindo «Noregs Vaapen» percebe-se bem porquê. Os longos temas baseados na atmosfera opressiva dos riffs em tremolo como os ocasionais blastbeats secos e vocalizações possessas do seu vocalista Hoest. «Fra vadested til vaandesmed», o primeiro tema, é um cartão de visita respeitável, que automaticamente nos transporta para um estado de espírito muito próprio do black metal norueguês, continuado em «Orkan» e na balanceada «Nordbundet». É certo que «Noregs Vaapen» não vem trazer nada de novo ao black metal, mas também não é isso a que os Taake se propõem. O disco dentro dos terrenos em que se move é absolutamente eficaz, principalmente num espantoso trabalho de envolvência que o percorre, como também já o disco homónimo de 2008 o fazia de forma brilhante. Oiçam «Dei vil alltid klaga og kyta» e as já mencionadas «Fra vadested til vaandesmed» e «Nordbundet», para perceberem o alcance da questão da atmosfera, em que um pequeno pormenor pode ajudar um disco a passar de vulgar a muito bom. 8/10

SKELETONWITCH - «FOREVER ABOMINATION»

Como já disse aqui por várias vezes, uma banda não necessita de originalidade total para singrar, sendo essa postura digamos "conservadora" uma das características mais sui generis do metal. No caso dos Skeletonwitch esta máxima aplica-se na perfeição. Nada do que fazem transcende o metal, nem sequer o nicho do black thrash metal que exploram, mas não deixa de ser uma banda que lança registos cativantes. Seja pela aura retro e evil de uns Venom, Hellhammer e Usurper, os Skeletonwitch são daqueles grupos para o qual o termo revivalismo não faz sentido, porque parecem ter vivido exclusivamente nos anos áureos dos Hellhammer. Os temas de «Forever Abomination» são curtos, straight to point, com vocais rasgados, solos estridentes e muita agressividade. A par do novo disco dos Absu, é sem dúvida um dos momentos altos de 2011 no que diz respeito a black thrash metal e ainda vamos ter o novo dos Venom em breve. 8,4/10

Friday, October 07, 2011

PAIN OF SALVATION - «ROAD SALT TWO»

Pessoalmente, e é bom admiti-lo, este era o álbum que reunia mais expectativa, muito por causa desse clássico instantâneo que foi a primeira parte do conceito «Road Salt», que revelou todo o potencial de uma banda que até já nada tinha a provar. É verdade que a mudança de sonoridade não foi consensual, e muita gente sente já saudades dos Pain of Salvation de «Remedy Lane» e «One Hour by the Concrete Lake», mas é indesmentível que estes novos Pain of Salvation são das melhores bandas de prog/folk rock actual. Partindo para a análise deste novo disco, também é preciso concordar que os álbuns do «Road Salt», atiram os suecos para os meandros da música mainstream, já que de metal pouco ou nada têm. No entanto, para quê querer reduzir uma banda como os Pain of Salvation ao rótulo de metal progressivo? Este fundamentalismo muito comum no metal, acaba por ser contraproducente ao castrar criativamente bandas que de uma forma natural se atiraram a novas fórmulas para evitarem o malfadado piloto-automático do qual se tornariam invariávelmente reféns. Nesta perspectiva é invejável que os Pain of Salvation tenham feito o que lhes ia na cabeça e tivessem mandado o rótulo "metal" às favas. Os resultados falam por si: se o primeiro disco é nada menos do que soberbo, «Road Salt Two» segue-lhe as pisadas com um conjunto de malhas excepcional, de onde sobressaem «Softly She Cries», «Conditioned», «To The Shoreline» e «Mortar Grind». O registo é semelhante a «Road Salt One» a todos os níveis, embora ligeiramente mais rockeiro, mas também sem uma «No Way», «Sisters», «Road Salt» ou «Linoleum». Neste aspecto parece-me um álbum ligeiramente inferior ao primeiro, mais ainda assim com os seus muitos trunfos. Penso que haverão uns Pain of Salvation antes e depois deste conceito «Road Salt»: daqui emergiu uma banda amplamente mais elegante e irreverente (ainda mais do que em «Scarsick»), para comprovar nessa tour fantástica com os Opeth a passar por cá em Novembro. 9/10

RWAKE - «REST»

Conheço relativamente bem a carreira dos norte-americanos Rwake para ter ficado genuinamente impressionado com «Rest». Os álbuns anteriores claudicavam no sludge doom e nem foram especialmente felizes, com alguns discos medianos como «Hell is a Door to the Sun» (2002) e «If You Walk Before You Crawl You Crawl Before You Die» (2004), e ainda um «Voices of Omens» (2007) do qual dentro do sludge não se fez história. «Rest» não só mostra argumentos válidos, como admirávelmente nem faz uma mudança assim tão radical na sonoridade dos Rwake. A faixa de abertura (depois de um curto instrumental9 «It Was Beautiful but Now It's Sour» parece condensar tudo o que de bom esta banda tem: atmosfera, belos riffs, vocais raivosos e desesperantes e um sentido de canção aprimorado. Trunfos jogados com ainda melhor estratégia em «An Invisible Thread», que quando começa parece vir de um álbum dos Mastodon, para subitamente revelar a costela black metal que os Rwake vão inserindo casualmente nas suas músicas, culminando num riff de guitarra ali por volta dos 5:15, tão doom que arrepia o metaleiro mais calejado. «The Culling» é porém a faixa mais desafiante que se prolonga por 16 minutos de sludge/doom atmosférico tão depressivo que dá uma tareia a muitos álbuns dos Shining. «Rest» não representa só uma banda rejuvenescida, mas tudo do melhor que este estilo (tão em vôga hoje em dia) de melhor tem para oferecer. 9,5/10

BRAINSTORM - «ON THE SPUR OF THE MOMENT»

Os germânicos Brainstorm sempre foram uma banda de inegável potencial, mas que por algum motivo obscuro nunca conseguiram saír da penumbra dos meandros do power metal, mesmo depois de dois discos assumidamente mais modernaços como «Downburst» e «Memorial Roots». «On the Spur of the Moment» segue o mesmo caminho, mas consegue oferecer o que me parecem ser um conjunto de canções mais cativantes do que nos antecessores. Através das contagiantes «In the Blink of an Eye», «Temple of Stone» e «In These Walls» (esta que foi escolhida para single), e dos semi-épicos «Below the Line» e «My Own Hell» que abrem e encerram o disco respectivamente. Este 9º álbum de originais prima pelo feeling electrizante, simultaneamente pesado e melódico, que pode agradar a ambos fãs de power metal metal agressivo e melódico. Experimentem, por exemplo, ouvir «Still Insane», que à primeira vista parece uma canção hard rock banal, mas que se torna irresistível, muito por culpa de uma performance extraordinária de Andy B. Franck, provavelmente a melhor do vocalista desde que está nos Brainstorm. Por falar em prestações do vocalista, «No Saint - No Sinner» é o seu apogeu neste álbum, assim como em «Life on Hold», embora aqui as guitarras ganhem especial preponderância. É sempre complicado dizer que um novo álbum de uma banda é o seu melhor, até porque todos têm a sua razão de ser numa discografia, mas se julgarmos «On the Spur of the Moment» pela qualidade dos seus temas e pelas prestações dos músicos envolvidos, dificilmente encontramos no passado rival à altura. 8,9/10

EXMORTUS - «BEYOND THE FALL OF TIME»

«Beyond the Fall of Time» é somente o segundo álbum dos Exmortus, e como lhes havíamos preconizado um bom futuro em 2008, este novo álbum é a confirmação dessa óptima estreia que foi «In Hatred's Flame». O grupo norte-americano consegue juntar elementos de black, thrash e death metal com uma enorme facilidade, criando uma besta de álbum com músicas catchy, apesar de normalmente longas, que contêm ingredientes de todos esses estilos como «Kneel Before the Steel» prova. Referências mais que óbvias aos monstros do thrash alemão, mas também a Slayer e Vader. Os primeiros pelos solos King/Hanneman espalhados pelas músicas, os segundos pela aproximação vocal de Conan que recorre também ao eterno Cronos dos Venom, como se pode ouvir em «Black XIII» e «Destroy». Com uma produção super-pujante, «Beyond the Fall of Time» merece de facto alguma atenção por parte dos adeptos principalmente de death metal, que têm aqui uma proposta muito acima da média. 8/10

GLORIOR BELLI - «THE GREAT SOUTHERN DARKNESS»

Uma das mais emblemáticas bandas do movimento black metal francês, os Glorior Belli lançam aqui o seu quarto álbum e no qual tomam uma direcção cada vez mais directa, catchy e com recurso a muito southern rock e sludge americanizado. Músicas como «Secret Ride to Rebellion» e «Negative Incarnate» pendem para ritmos mid-tempo a pisar os terrenos de bandas como Howl e Black Tusk. Algumas músicas ainda sugerem o black metal mais agressivo de outros tempos, nomeadamente em «Bring Down the Cosmic Scheme» (apesar da parte intermédia recuperar novamente essa tendência sulista) e «Chaos Manifested» . Este ambiente southern já havia sido explorado em «Meet us at the Southern Sign», mas mantinha a atmosfera geral de um disco black metal negro e agressivo. Aqui é todo o disco envolto nesta névoa sombria que vai buscar os Kyuss muito daquilo que este fizeram em «Blues for the Red Sun» (1992) e «Welcome to Sky Valley» (1994). Oiçam por exemplo, a tema título, «Horns in My Pathway» e «Per Nox Regna». No geral «The Great Southern Darkness» é um álbum com grande feeling e groove que mistura dois géneros que à partida não teriam muito em comum. 7,8/10
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