
Quatro anos após o controverso «Dark Passion Play» eis que os
Nightwish regressam com mais um trabalho que promete fazer correr muita tinta. O sucesso que antecedeu o disco de 2007, muito por culpa do carisma de Tarja Turunen, fez com que o grupo alcançasse uma fama sem precedentes sem ceder uma grama de peso (houve até acréscimo) relativamente aos seus primeiros trabalhos. Infelizmente, Tarja e a restante banda entraram em rota de colisão e a soprano acabou despedida e substituida por Anette Olzon, uma vocalista consideravelmente diferente de Tarja, pelo seu background mais virado para o hardrock. «Dark Passion Play» conseguiu apesar da mudança de vocalista catapultar a banda para as estrelas, porque apesar de tudo, sempre foi Tuomas Holopainen o principal compositor dos Nightwish e por isso, musicalmente, a banda perdeu pouco ou quase nada em relação aos Nightwish com Tarja nos vocais. «Imaginaerum» vem pôr a nú algumas das limitações de Anette Olzon, mas também do próprio universo que o grupo finlandês vem explorando do «Once» para cá. Digo do «Once» porque antes desse registo, os Nightwish eram essencialmente uma banda de power metal sinfónico com letras góticas, mas com um universo bastante diverso sem que caíssem no cliché a que estão devotadas a maior parte das bandas do estilo. Com «Once» e consequentemente, «Dark Passion Play», Holopainen trouxe à banda um registo mais rígido de empatização com os fãs, de lhes dar exactamente o que eles querem: letras góticas, românticas de índole mitológicas e até algum egocentrismo, nomeadamente nas músicas autobiográficas e nos recadinhos a Tarja. «Imaginaerum» não foge à regra. A toada escapista e de contornos burtonianas confere aos Nightwish uma aura que vai ao encontro dos sentimentalismos góticos que os seus fãs esperam deles. A música em si é bastante mais complexa do que isso, felizmente. Temos por um lado as músicas mais características do grupo como «Storytime» (cujo riff principal é um derivação do riff de «Master Passion Greed»), «Ghost River» (com um refrão gamado a Sisters of Mercy) e «I Want My Tears Back» (cuja estrutura resulta numa fusão de «Last of the Wilds» com «Wish I Had an Angel»). As referências a outros momentos da carreira dos Nightwish são vários ao longo do disco, mas Holopainen não deixa de nos surpreender com algumas músicas brilhantes em qualidade e outras em extravagância. No primeiro pólo ficam «Scaretale» (que mais parece uma homenagem às bandas sonoras de Danny Elfman) e a bombástica «Last Ride of the Day», ficando pelo meio os riffs à Metallica de «Rest Calm». Estas três são inequivocamente aquilo que esperamos dos Nightwish de sempre: músicas variadas, poderosas, com pormenores inteligentes, peso e melodia em iguais proporções. Pena que o álbum não seja todo nesta toada. No segundo pólo temos três baladas chatas sem feeling nenhum, entre as quais o devaneio bluesy/jazzy de «Slow, Love, Slow» e as bocejantes «Turn Loose the Mermaids» e «The Crow, the Owl and the Dove». O disco é muito aquilo que se disse até agora, um carrosel circense de emoções (alusão parcial à capa do disco) em que temos de esperar o inesperado. Neste âmbito, «Imaginaerum» cumpre perfeitamente o seu intento, mas nesta tão grande variedade, é normal que o disco sofra bastante em termos de homogeniedade. Isto é, passado o efeito surpresa, torna-se penoso ouvir este disco de príncipio ao fim, sem caír na tentação de fazer edit do disco e retirar pelo menos quatro músicas do alinhamento. Penso que um melhor planeamento das músicas, ou da estrutura do disco, teria feito maravilhas a «Imaginaerium», de forma a que não soasse tão esquizofrénico. Disse ali perto do início da review, que Anette Olzon revela aqui algumas limitações, audíveis principalmente quando os temas pedem uma voz mais poderosa, precisamente em «Scaretale» e «Rest Calm», mas convenhamos também que numa música tão 2x2 que é «I Want My Tears Back», Olzon tem um défice de alcance relativamente à anterior vocalista. Aliás, não raras as vezes dei por mim a pensar como seria esta e aquela parte com Tarja nos vocais. Onde Olzon se dá melhor que Tarja é nas partes calmas, com o tom mais quente, que dá uma vivacidade especial aos Nightwish em, por exemplo, «Turn Loose the Mermaids» (a melhor das três baladas) e em «Storytime» cuja cadência rockeira ajuda Olzon que tem um background mais rock que Tarja. Esta provinha da escola clássica. All in all, «Imaginaerum» é um follow-up interessante a «Dark Passion Play», pois com os mesmos ingredientes do antecessor, consegue agradar aos seus fãs e simultaneamente não ser demasiado óbvio, como atesta o tema instrumental que encerra o disco, que é um exercício engraçado, só ao alcance de algumas banadas. O disco merece alguma discussão pela variedade e abrangência da música contida e isso é mais do que a maioria das bandas hoje consegue fazer: ser pertinente, com qualidade.
7,8/10